Tente trancar a cultura de um povo em uma sala escura por séculos. Tente gastar milhões de libras em recursos públicos para processar artistas e censurar canções bilingues. Tente usar a máquina pública e o gabinete do Primeiro-Ministro britânico para abafar um movimento cultural que floresce no asfalto de West Belfast.
O resultado de tudo isso? O trio norte-irlandês KNEECAP não apenas sobreviveu ao establishment, como transformou a perseguição política em combustível para o álbum mais urgente, caótico e visceral de 2026.
Se o aclamado Fine Art (2024) colocou o grupo no mapa global, o recém-lançado FENIAN destrói os mapas antigos para criar um novo território. Produzido pelo renomado Dan Carey, o trabalho equilibra-se perfeitamente em uma linha tênue e genial: o peso industrial de rimas cortantes, a fúria do rave-punk feito para incendiar festivais e a vulnerabilidade desarmada de quem sabe o verdadeiro significado de trauma e luto coletivo. Eles pegaram um insulto histórico e o transformaram em medalha de honra.
Para entender como a fúria das ruas de Belfast se transformou em uma obra-prima de sobrevivência, o TMDQA! teve a chance de conversar exclusivamente com o homem por trás dos sintetizadores e das batidas do grupo: o icônico DJ Próvaí.
Direto dessa trincheira sonora, ele nos contou sobre a verdadeira raiz da palavra “fenian”, a hipocrisia de líderes políticos como Keir Starmer, a conexão espiritual de resistência entre a Irlanda e a Palestina e a catarse contida na emocionante faixa de encerramento do disco. Além, é claro, de revelar se as pistas brasileiras estão prontas para receber esse verdadeiro terremoto em formato de mosh pit (spoiler: 2027, quem sabe…)
Confira o papo abaixo!
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TMDQA! Entrevista DJ Próvaí (KNEECAP)
TMDQA!: Bem, Próvaí, muito obrigado por me receber, cara! É um prazer falar com você agora. Primeiramente, parabéns pelo lançamento de FENIAN – vocês pegaram um termo que usavam para caçar o seu povo e o transformaram no título de um álbum que soa como uma rave dentro de um bunker. Como foi esse processo de transformar o significado dessa palavra?
DJ Próvaí: Ótima pronúncia! Sim, bem… Na Irlanda, por muito tempo, os britânicos tentaram nos subjugar. A primeira coisa que um colonizador faz é assumir o controle do idioma do país que ele invade.
O irlandês foi a língua da Irlanda por milhares de anos, sabe? Mas eles fazem parecer que é controverso nós, como uma banda irlandesa, cantarmos em irlandês e usarmos a palavra “fenian”. Originalmente, ela vem da mitologia irlandesa; os fianna eram os guerreiros de Fionn mac Cumhaill, um gigante mitológico. O termo era usado com orgulho, como uma medalha de honra.
Porém, depois que os britânicos colonizaram a Irlanda, eles passaram a usar “fenian” como um insulto pejorativo. Eles te chamavam pela palavra para fazer você se sentir atrasado, inferior, como se fosse um selvagem que eles precisavam “civilizar” – usavam expressões como “seu bastardo Fenian”, “seu canalha Fenian” e coisas do tipo. Mas, ao longo dos séculos, muitos movimentos e grupos na Irlanda continuaram usando o termo como uma forma de resistência e orgulho.
Nós estamos apenas reivindicando a nossa língua. Existe poder no idioma, estamos trazendo de volta o verdadeiro significado.
Achamos que batizar o álbum assim seria algo lindo. E também é muito engraçado ver as pessoas nas rádios da Inglaterra tendo que anunciar: “e a próxima faixa é de FENIAN!”[risos] É uma faca de dois gumes.
TMDQA!: Perfeito. Trabalhar com o Dan Carey trouxe um som industrial, metálico e cru. Em faixas como “Smugglers & Scholars”, sinto como se os instrumentos estivessem tentando nos atropelar. Como vocês traduziram o caos de Belfast para as máquinas e sintetizadores dele naquele estúdio no sul de Londres?
DJ Próvaí: O Dan Carey é um gênio musical. Ele foi ao nosso show na Wembley Arena – que aconteceu bem no meio de todo aquele turbilhão do nosso processo judicial – porque queria sentir como é a dinâmica de um show do KNEECAP ao vivo. E o show realmente tem essa pegada industrial, sabe? Essa sensação que você mencionou, de parecer que está sendo atropelado.
Então, quando fomos para o estúdio, ele quis recriar algo que pudesse soar gigante em arenas – ele encontrou esse caminho especialmente em “Smugglers & Scholars”. Ela tem essa energia e, quando tocamos ao vivo, a atmosfera fica incrivelmente sombria e industrial. Essa foi a ideia do Dan: ouvir as nossas letras e pensar algo como “certo, como posso dar vida a essas palavras?”. Foi exatamente o que ele fez.
O resultado final realmente te transmite a sensação de uma Belfast marcada pelos Troubles (os Conflitos na Irlanda do Norte).
TMDQA!: A faixa de abertura de FENIAN (“Éire go Deo”) tem uma atmosfera quase espiritual. Você sente que falar irlandês em 2026, depois de tudo o que fizeram para sufocar o grupo, é mais um ato de poesia ou um ato de autodefesa?
DJ Próvaí: Acho que é, acima de tudo, uma expressão cultural. Nós não deveríamos mais estar falando a língua irlandesa; eles tentaram extingui-la. Portanto, o fato de ainda estarmos aqui, de ainda falarmos irlandês e expressarmos nossa cultura através do nosso próprio método – e não através de uma língua que nos foi imposta à força – é uma grande vitória. É um testamento de resistência do povo que lutou contra todas as tentativas de apagar nosso idioma e nos “civilizar”. Eles queriam garantir que todos falassem inglês, que todos amassem a Rainha e cantassem canções inglesas alegres.
Mas nós temos a nossa própria cultura, e ela é muito mais poética. Por milhares de anos, o povo irlandês cantou músicas, declamou poesias e recitou histórias de forma oral – wra assim que a nossa história era transmitida, muito antes de a escrita sequer existir. A história passava de geração em geração através dos poemas e das canções. Então, sim, quando começamos a fazer música, era fundamental que fizéssemos na nossa própria língua. Afinal, o irlandês é o idioma da Irlanda.
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TMDQA!: Cara, vocês transformaram acusações de terrorismo na matéria-prima de “Carnival”. Em que momento, dentro daquele tribunal, vocês perceberam que aquela situação absurda daria uma ótima música?
DJ Próvaí: Essa sacada eu preciso creditar ao Móglaí Bap e ao Mo Chara! Como nós estávamos vivendo aquilo na pele, foi uma experiência muito surreal. É bizarro pensar que o Primeiro-Ministro do Reino Unido – a figura política mais poderosa do país – estava tentando censurar uma banda que canta em irlandês. Parece uma história distópica, algo saído de um filme de ficção.
Estávamos sentados ali pensando: “isso é ridículo”. Eles gastaram mais de um milhão de libras tentando nos levar a julgamento e censurar uma banda. Isso estabelece um precedente muito perigoso: tentar censurar artistas apenas porque eles têm visões opostas às do governo – isso é o fascismo em ação, especialmente quando vem do chefe do governo, Keir Starmer, que é um ex-advogado de direitos humanos que não dá a mínima para os direitos humanos. Por isso é importante que artistas e bandas se posicionem e tragam um pouco de humanidade ao mundo, já que os líderes mundiais que temos hoje em dia agem como psicopatas.
TMDQA!: Com certeza. Inclusive, a colaboração com o Fawzi em “Palestine” cria uma ponte entre o árabe e o irlandês. Além da política, qual é a conexão rítmica ou espiritual que vocês encontraram entre a resistência em Belfast e a resistência em Ramallah?
DJ Próvaí: É o mesmo tipo de história, a mesma história sendo contada de uma forma diferente, em uma época diferente – na Irlanda, nós vivemos um genocídio. Houve a fome forçada, a remoção forçada das nossas terras. Metade da população teve que emigrar e a outra metade morreu de fome enquanto a comida produzida aqui era exportada em navios. E você vê isso acontecendo na Palestina hoje: uma fome forçada. Você vê uma cidade antiga como Rafah ser completamente pulverizada, reduzida a escombros.
É a mesma história. Nós sabemos como o trauma coletivo ecoa através das gerações, e é triste ver que isso continuará afetando outros países, como acontece na Palestina, no Irã, no Líbano… É impossível para nós não sentirmos o lado humano disso e não nos solidarizarmos, porque temos muitos amigos, irmãos e irmãs palestinos que amamos. Nós desejamos o melhor para eles.
Eles estão sendo bombardeados do céu por drones, comandados por pessoas sentadas em países distantes que não têm direito nenhum de estar ali bombardeando hospitais e escolas. Acho que apoiar o povo palestino é a única postura correta a se tomar.
TMDQA!: Mais uma vez, ótima colocação, cara. O álbum termina com “Irish Goodbye”, uma faixa surpreendente e inesperada sobre o luto, com a participação de Kae Tempest. Foi difícil deixar o público ver o que existe por baixo da agressividade punk de vocês? O que dói mais: enfrentar o Primeiro-Ministro ou enfrentar a ausência daqueles que já se foram?
DJ Próvaí: Acho que essa seria uma pergunta mais adequada para o Móglaí Bap responder, mas o que posso te dizer é que, sim, com certeza é muito mais difícil conviver com a perda de alguém que amamos – espero que escrever “Irish Goodbye” tenha trazido algum tipo de catarse para ele. Quando alguém parte em circunstâncias trágicas, é muito fácil focar apenas nos aspectos negativos e lembrar dos momentos difíceis.
Acho que essa música foi a forma que o Móglaí encontrou de celebrar os momentos bons e lembrar das coisas simples do dia a dia: sentar para tomar um café com alguém, dar um passeio… as pequenas coisas, sabe? Espero que tenha trazido um pouco de conforto e encerramento para ele.
Agora, enfrentar os tribunais britânicos… pode ser estressante, claro, mas nós tínhamos uma equipe fantástica ao nosso lado e muitas pessoas nos apoiando do lado de fora do tribunal. Para nós, era crucial desafiar os abusos de poder. Existem governantes que simplesmente querem empurrar essas leis goela abaixo sem qualquer contestação, e é obrigação do povo cobrá-los, afinal, eles são representantes eleitos. São pessoas que deveriam cumprir a vontade do povo; se foram votadas para fazer um trabalho e fazem o oposto, não deveriam estar no poder.
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TMDQA!: Próvaí, eu sou de Belo Horizonte, no Brasil, e aqui temos uma expressão que se chama “comer quieto”, que significa fazer as coisas em silêncio, pelas beiradas. Mas o KNEECAP chegou na cena chutando a porta da frente. Vocês sentem que abriram o caminho para uma nova geração de artistas que não têm mais medo de ser “políticos demais”?
DJ Próvaí: Sim! Nós viemos da Irlanda, e há uma longa tradição de bandas irlandesas que são muito vocais sobre os problemas do mundo. Temos o Christy Moore, a Sinéad O’Connor, e também temos muitas bandas punk que nasceram da resistência, da luta por direitos civis e contra o encarceramento. São pessoas que sofreram na pele; eram cidadãos de segunda classe em sua própria terra, não tinham direito à moradia, não conseguiam empregos e precisavam de uma válvula de escape. Alguns escolheram caminhos violentos, outros escolheram caminhos não violentos.
O éthos do punk e a própria cena rave nasceram dessa necessidade de resposta, o que estamos fazendo é apenas seguir essa tradição. Espero que mais bandas surjam depois de nós, levem a língua irlandesa para o próximo nível e continuem pressionando governos e políticos que só querem encher os próprios bolsos de dinheiro, sem se importar com os problemas reais das comunidades de onde viemos.
TMDQA!: O KNEECAP não para de crescer no coração das pessoas e vocês estão com uma turnê incrível na estrada agora. Vocês têm muitas datas marcadas pelo mundo e eu preciso perguntar: e o Brasil? Estamos esperando por vocês!
DJ Próvaí: Ah, nós também estamos ansiosos para ir ao Brasil! Adoraríamos tocar aí e, quem sabe no ano que vem, consigamos fechar algumas datas no Brasil, queremos muito viajar pela América do Sul.
Todos os amigos que conhecemos do Brasil, do Paraguai, da Argentina, são pessoas extremamente apaixonadas. Na Irlanda, nós também somos muito passionais. Acho que seria um show fantástico, um mosh pit lindo. [risos]
TMDQA!: Sensacional! Se o KNEECAP fosse uma substância química ou um elemento da tabela periódica em 2026, qual seria a sua composição e quais seriam os efeitos colaterais para quem o consumisse?
DJ Próvaí: Ah, eu diria que seríamos o hélio. Deixa a sua cabeça um pouco mais leve, você começa a falar como eu (com a voz fina) e pode simplesmente sair flutuando depois de um dos nossos shows [risos].
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TMDQA!: Para encerrar essa entrevista, você poderia citar cinco álbuns que mudaram a sua vida e explicar o porquê?
DJ Próvaí: Cinco álbuns? Caramba, me pegou de surpresa! Deixe-me pensar…
Eu diria o CD de 25º Aniversário do The Wolfe Tones. Eles são uma grande banda de rebel music (música de resistência) na Irlanda.
A minha próxima escolha vai ser completamente diferente das escolhas dos outros dois rapazes da banda, mas eu diria o Damien Rice (com o álbum O). Na época em que eu estava aprendendo a tocar guitarra e a entender música, eu ouvia muito o Damien Rice.
O Definitely Maybe do Oasis, com certeza.
O Dogrel do Fontaines D.C.
E… ah, não consigo lembrar de um quinto de cabeça agora, mas você já tem quatro aí! [risos]
TMDQA!: Você já entregou quatro excelentes escolhas! Muito obrigado por conversar conosco, Próvaí, foi um verdadeiro prazer.
DJ Próvaí: Muito obrigado a você. Valeu!
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