O debate sobre o clipe volta à pauta todos os anos, quase sempre com a mesma provocação: ainda vale a pena investir pesado? Nos últimos tempos, os artistas passaram a questionar o retorno financeiro direto desse formato, enquanto outros apostam em superproduções e projetos cada vez mais ambiciosos. Para quem está nos bastidores, a questão não é se o clipe perdeu força, mas qual função ele passou a desempenhar dentro da estratégia de carreira.
À frente da Ginga Pictures, produtora responsável por projetos de artistas como Anitta, Karol G, Sam Smith, Pedro Sampaio, Luísa Sonza, Maluma e Nicky Jam, Felipe Britto e Mel Chapaval acompanham essa transformação de perto. Para eles, o clipe deixou de ser apenas uma ferramenta promocional e passou a ocupar um espaço mais estrutural na construção artística.
Construção de universo e posicionamento global
Para entender essa mudança, é preciso olhar para o clipe como parte de uma narrativa maior. Ele deixa de ser apenas suporte visual da música e passa a estruturar discurso, identidade e território cultural.
“Hoje o videoclipe assume a função de uma ferramenta de construção de universo e posicionamento global. O Bad Bunny é um ótimo exemplo: ele usa o audiovisual para colocar Porto Rico no centro da narrativa, seja na estética, na locação ou no discurso. Não é só cenário, é identidade. A Rosalía fez algo semelhante ao levar referências da cultura espanhola, do flamenco à iconografia religiosa, para uma linguagem pop contemporânea e exportável”, afirma Felipe.
Na leitura dele, o impacto vai além da imagem isolada que acompanha a música e passa a estruturar discurso cultural e percepção de mercado.
“Acredito que o clipe em 2026 consolida a identidade visual do artista e cria imaginário em volta dele também. Além de também gerar um repertório estético replicável, ele posiciona culturalmente no mercado global. O videoclipe não é mais só ‘lançamento’. É construção de legado visual”, completa.
Essa ideia de legado desloca o debate das métricas imediatas para coerência de longo prazo. A estética deixa de ser acessório e passa a ser ativo estratégico.
Views não são o centro da conta
Se a função mudou, a expectativa também precisa mudar. Medir o sucesso apenas por visualizações ignora o efeito indireto que o audiovisual pode gerar na percepção de valor de um artista.
“O erro é tratar o videoclipe como centro de monetização direta. Se fosse apenas sobre views, muitos projetos mais autorais não existiriam. A Billie Eilish, por exemplo, usa o audiovisual como extensão conceitual da música. Nem sempre são superproduções comerciais, mas fortalecem marca e diferenciação”, explica Felipe.
Ele detalha onde, de fato, o clipe costuma “se pagar”.
“O retorno real do videoclipe para o artista está no aumento de valor percebido, fortalecimento de branding, diferenciação artística e impacto indireto em streaming e turnê. Assim, o clipe é investimento estratégico e não planilha de curto prazo”, diz.
A lógica passa a ser menos imediatista e mais estrutural. O audiovisual influencia o valor de mercado do artista, sua força de negociação e a forma como é percebido por público, marcas e parceiros.
Momento de carreira e clareza de posicionamento

Na prática, a decisão de investir em um projeto audiovisual mais robusto depende de leitura estratégica. A equipe da Ginga trabalha com critérios claros antes de aprovar um projeto.
“Nós olhamos para três pilares. O primeiro é o momento de carreira: o artista está se reposicionando, consolidando sua imagem ou buscando internacionalização? O audiovisual precisa conversar com essa fase”, explica Felipe. “O segundo é a narrativa estratégica. A pergunta central aqui é: o projeto em questão constrói algo maior ou é apenas mais um conteúdo? O terceiro pilar é o potencial de desdobramento. Ele gera conversa? Cria uma estética replicável? Permite cortes estratégicos e conteúdos adicionais? Se o projeto ajuda a mover o artista para o próximo degrau, faz sentido”, completa.
Essa avaliação conecta investimento ao estágio da trajetória, e não apenas ao orçamento disponível. Para Mel Chapaval, também sócia-fundadora da Ginga Pictures, o ponto central é outro: clareza.
“A gente costuma dizer que não é tanto sobre tamanho da carreira, mas sobre clareza de posicionamento. Um audiovisual mais robusto faz sentido quando o artista já entende quem ele é, o que quer comunicar e para quem está falando”, afirma Mel.
Ela ressalta que o começo costuma ser o momento de testar linguagens e experimentar formatos com custos menores.
“No início, é muito válido experimentar, testar formatos e errar barato. Mas quando a identidade artística começa a se consolidar, seja por crescimento orgânico, resposta do público ou interesse do mercado, investir em um projeto mais bem estruturado pode ser um divisor de águas. O audiovisual deixa de ser só ‘conteúdo’ e passa a ser uma ferramenta estratégica de branding e expansão”, diz.
Parceria criativa e coerência de marca
Outro ponto decisivo é a relação entre artista, direção e produção. A consistência estética ao longo do tempo depende de alinhamento criativo.
“O diretor e o produtor são tradutores de visão. O artista tem intuição, repertório e emoção. O diretor transforma isso em linguagem visual. O produtor garante que essa visão aconteça com coerência, escala e estratégia”, explica Felipe.
Essa parceria ajuda a evitar ruídos de identidade e cria uma assinatura reconhecível. O audiovisual passa a integrar a estrutura da marca do artista, e não apenas ilustrar um lançamento específico.
Brasil, exterior e formatos híbridos

A escolha de produzir no Brasil ou fora do país também entra nesse planejamento estratégico. Para Mel, a decisão precisa ter propósito narrativo claro.
“Produzir fora do Brasil pode ser muito interessante para artistas brasileiros quando existe um propósito claro, seja explorar uma estética diferente, dialogar com novas referências culturais ou posicionar o projeto em um contexto mais global. Não é sobre ‘parecer internacional’, mas sobre usar o ambiente como parte da narrativa artística”, afirma.
Ao olhar para o que vem pela frente, a produtora enxerga uma tendência de formatos menos engessados e mais híbridos, misturando linguagens e aumentando o ciclo de vida do conteúdo.
“A gente vê uma tendência clara de projetos mais híbridos e menos engessados em formatos tradicionais. Conteúdos que misturam performance, bastidores, narrativa documental e linguagem digital tendem a ganhar ainda mais força”, diz Mel. “O público busca verdade, proximidade e contexto. Ele quer entender o artista além do clipe perfeito. Ao mesmo tempo, o mercado valoriza projetos que já nascem pensados para circular em múltiplas plataformas, com recortes inteligentes e vida longa. Mais do que grandes produções, o que vai se destacar em 2026 são ideias bem executadas, com identidade forte, storytelling consistente e uma estratégia clara de distribuição”, conclui.
No centro dessa discussão, o clipe deixa de ser avaliado apenas pelo número de visualizações e passa a ser entendido como peça estratégica de construção de marca. Para a Ginga Pictures, a pergunta não é se vale investir, mas como alinhar cada projeto ao momento certo da carreira e ao posicionamento que se quer ocupar no mercado global.
Leia mais:
Fonte