A Virada Cultural de São Paulo chega à reta final para sua 21ª edição em meio a um cenário que mistura a preparação do evento pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa e a insatisfação de parte da classe artística. As inscrições para envio de propostas foram encerradas ontem (23), o que marca o fim da etapa de submissão e o início do processo interno de avaliação da programação.
Ao mesmo tempo, artistas e produtores culturais passaram a se mobilizar publicamente nas últimas semanas para questionar pontos do modelo atual. A articulação foi puxada pelo Movimento dos Sem Palco (MSP), que organizou reuniões, formalizou uma carta manifesto e levou as demandas diretamente à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo.
Artistas apontam falhas no processo e pedem mais transparência
Entre as principais críticas apresentadas pelo grupo estão questões operacionais e estruturais. Os artistas relatam dificuldades no próprio processo de inscrição, além da ausência de retorno sobre propostas enviadas e da falta de clareza sobre os critérios de escolha.
Segundo o material encaminhado pelo movimento, a ausência de um protocolo que comprove a inscrição gera insegurança sobre a participação efetiva no processo.
“Todo ano é assim: as plataformas não informam se a inscrição foi realizada, não geram protocolo de inscrição e também não esclarecem os critérios de negativa”, afirmou Walter Egéa, empreendedor cultural e um dos articuladores do movimento.
“Depois a gente fica sabendo que verbas milionárias foram destinadas a artistas de renome e projeção, mas a gente não tem acesso aos critérios dessa curadoria. Por isso que a gente está se mobilizando!”, completou Egéa.
Outro ponto recorrente nas críticas diz respeito à distribuição de recursos. O manifesto levanta a hipótese de que valores concentrados em poucos nomes poderiam, em tese, viabilizar um número maior de apresentações de artistas independentes, o que abriria mais espaço para diversidade na programação.
O documento também destaca que a falta de transparência pode impactar diretamente a confiança dos artistas no processo e desestimular a participação em futuras edições, especialmente entre quem ainda busca espaço no circuito.
Secretaria explica como funciona a curadoria e a seleção
Procurada pelo Mundo da Música, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa respondeu aos questionamentos detalhando o modelo adotado para a construção da programação. Segundo a pasta, a curadoria se baseia em um conjunto amplo de análises.
“A curadoria artística da Virada Cultural é orientada por pesquisas de consumo cultural, critérios técnicos, estudos de perfil de público e levantamentos nos territórios da cidade”, informou.
Esse conjunto de informações, segundo a Secretaria, orienta a montagem da programação, que busca equilibrar diferentes perfis de público e linguagens artísticas, além de considerar o impacto do evento na cidade.
“A programação busca equilibrar diversidade cultural e atrações de grande alcance popular, considerando também o papel estratégico do evento na promoção do turismo, geração de renda e movimentação econômica na cidade”, acrescentou em nota.
Em relação ao processo de inscrição, a Secretaria reforça que ele ocorre exclusivamente pela plataforma Porta de Entrada, sistema oficial da Prefeitura que centraliza as propostas enviadas por artistas e produtores.
“As propostas recebidas passam por avaliação técnica, considerando critérios como relevância artística, aderência à proposta do evento e viabilidade de execução.”
A pasta afirma ainda que o contato com os artistas ocorre apenas em caso de aprovação, por meio de comunicação oficial.
“Em caso de aprovação, os selecionados são informados por e-mail oficial da Prefeitura.”
Sobre os aspectos financeiros, a Secretaria destaca que segue as exigências da legislação vigente e utiliza bases públicas para validar valores de cachês.
“A pasta reitera que a contratação de artistas segue rigorosamente os requisitos legais e os princípios de transparência, legalidade e impessoalidade que regem a Administração Pública. Desde 1º de janeiro, a pasta adotou o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), instituído pela Lei nº 14.133/2021, como base para a pesquisa de preços dos cachês artísticos, conforme os critérios de controle da legislação vigente. Os processos administrativos incluem a comprovação da consagração do artista junto à crítica especializada e à opinião pública, por meio de documentação apresentada no sistema ‘Porta de Entrada’, além da demonstração de compatibilidade dos valores com apresentações anteriores realizadas sem vínculo com o Município”, concluiu.
O que foi respondido e o que segue em aberto
A resposta oficial esclarece a lógica geral do processo, mas não contempla de forma direta algumas das demandas centrais levantadas pelos artistas. Não há confirmação sobre a criação de protocolos automáticos de inscrição, nem sobre a possibilidade de envio de devolutivas para propostas não selecionadas.
Também não foram detalhados critérios objetivos de priorização entre artistas independentes e nomes de maior alcance, ponto que aparece com frequência nas críticas do movimento. A Secretaria menciona a busca por equilíbrio na programação, mas não explica como isso se traduz na prática dentro do orçamento.
Outro aspecto que permanece sem detalhamento é a transparência ativa dos critérios de curadoria, como a eventual publicação de parâmetros ou indicadores utilizados na seleção. Esse tipo de medida é justamente um dos pedidos centrais apresentados pelo grupo de artistas.
Reunião com secretário detalha demandas de artistas independentes

Como consequência da iniciativa dos artistas independentes, esse cenário ganhou um novo capítulo. Na segunda-feira (23), representantes do Movimento dos Sem Palco (MSP) se reuniram com o secretário municipal de Cultura, Totó Parente, para tratar diretamente das demandas relacionadas à Virada Cultural.
Na reunião, o grupo apresentou um manifesto com pedidos que incluem a prorrogação do prazo de inscrições, maior clareza sobre os critérios de seleção e a abertura de discussões sobre o modelo de curadoria do evento.
“Também pedimos a abertura de discussões sobre o sistema de curadoria, além de mais clareza em relação aos critérios de seleção com relação às inscrições. Acho que é possível facilitar o acesso à plataforma, pois a realidade é que vários artistas independentes simplesmente acabam desistindo da inscrição por causa dessas dificuldades”, declarou Walter Egéa.
Além dessas demandas mais imediatas, o movimento também levou propostas estruturais para o formato da Virada Cultural. Entre elas, está a criação de uma programação paralela independente, pensada para abrir espaço a artistas que enfrentam dificuldades recorrentes para entrar no evento oficial.
O grupo também propõe mecanismos de rotatividade, como a limitação da participação de artistas selecionados em edições consecutivas, com o objetivo de aumentar o acesso e diversificar a programação ao longo dos anos. Outra sugestão envolve a ampliação de oportunidades para artistas mais jovens e também para aqueles com mais de 50 anos, recorte que, segundo o movimento, hoje aparece pouco na programação.
A revisão dos critérios de cachê também entrou na pauta da reunião. A proposta é discutir os valores pagos a artistas e sua relação com o perfil cultural do evento, tema que costuma gerar questionamentos dentro do setor.
“Enfim, sentimos falta de isonomia em relação às regras da Virada Cultural e pedimos ampliação e revisão das regras vigentes, com vistas à expansão de seu propósito original, dando palco a artistas que se veem alijados do casting dos eventos de maior repercussão”, disse Egéa.
Discussão acompanha crescimento e complexidade do evento
A Virada Cultural de São Paulo se consolidou ao longo dos anos como um dos maiores eventos gratuitos do país, com programação espalhada por diferentes regiões da cidade e uma combinação de artistas consagrados e novos projetos. Esse crescimento trouxe mais camadas de complexidade para a organização.
Por um lado, há a necessidade de garantir público e impacto para justificar o investimento público. Por outro, cresce a pressão por modelos mais transparentes e acessíveis, especialmente para artistas independentes que veem no evento uma oportunidade de visibilidade.
Com o encerramento das inscrições, o foco agora passa a ser a definição da programação final. É nesse momento que parte das questões levantadas tende a ganhar forma concreta, especialmente na composição do line-up e na distribuição dos espaços ao longo da cidade.
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