Em nova atualização no Substack no último domingo (28), Rosalía fez uma importante, honesta e valiosa reflexão acerca da rotina que artistas vivem quando estão em turnês com seus projetos musicais.
“A vida nômade não é para qualquer um. É preciso ser corajoso para ser nômade”, começou a voz de “Lux” (2025).
A cantora, que tem shows programados da “Lux Tour” no Brasil em agosto, no Rio de Janeiro, continuou, falando sobre a rotina em hotéis: “Você tenta construir um lar onde quer que vá. […] Nada nem ninguém te prepara de verdade para construir e destruir a sua casa todos os dias”.
A estrela espanhola também comentou sobre o fato de alguns artistas usarem “anestésicos” diversos como forma de escape da realidade.
“Não me impressiona que a maioria dos artistas costume reclamar quando se fala sobre ‘vida em turnê’ e muitos se entreguem a qualquer anestésico para suportá-la, porque não é brincadeira”, opinou.
“Tenho medo de não ter raízes em lugar nenhum, mas sei que, no fundo, carrego tudo o que importa dentro de mim e há coisas que nunca poderei perder, porque sou e sempre serei um arquivo de tudo aquilo que já amei”, completou.
Leia íntegra abaixo, em português:
Estou em turnê. Estive na Europa, agora estou nos EUA e logo estarei na América Latina (se Deus quiser). A essa altura, acho que devo estar na metade da turnê e, curiosamente, cada vez tenho mais vontade de falar no palco. Dizer a primeira ou a segunda coisa que vem à cabeça quando você tem um microfone na mão. No outro dia, no show de Nova York, comecei a falar sobre essa vida louca e, dias depois, fiquei pensando nisso, então decidi puxar esse fio.
O fio é o seguinte: a vida nômade não é para qualquer um. Meus respeitos a todas as pessoas que vivem assim. É preciso ser corajoso para ser nômade. Entenda-se por vida nômade aquela vivida com a casa nas costas e de forma desapegada. O desapego, aliás, não é opcional, porque boa parte do que você carrega nas costas, você vai perder pelo caminho. Viver mudando sempre de lugar, longe das suas coisas e dos seus, ou do lugar onde você nasceu. Viver longe de tudo aquilo que você ama e odeia, mas que, inevitavelmente, te lembra quem você é. Uma renúncia dolorosa, se você quer saber: casa ou lar não é apenas um refúgio, pode ser o eixo simbólico que te sustenta. Casa pode ser a sua pessoa ou o seu clã, pode ser um cheiro, quatro paredes ou a sua cidade… Não me impressiona que a maioria dos artistas costume reclamar quando fala da tour life (vida de turnê) e muitos se entreguem a qualquer anestésico para suportá-la, porque a vida de turnê não é brincadeira. Precisamente por isso, você tenta construir um lar onde quer que vá. Como músico na estrada, eu também tento, nós tentamos. Por sorte me ajudam, mas nada nem ninguém te prepara de verdade para construir e destruir a sua casa todos os dias.
O desenho de alguém que você ama em cima do criado-mudo, as camisetas penduradas cuidadosamente no armário, as luminárias que você apaga e acende até achar “a luz certa”, os livros empilhados que você nunca terá tempo de ler ou a estatueta decorativa de merda que você esconde dentro de um dos armários do hotel porque não suporta olhar para ela nem mais um segundo. Até hoje ainda me surpreende a soberba com que às vezes você pode caminhar e observar esses espaços como se fossem seus, como se por um segundo você acreditasse na sua própria mentira de que aquele quarto de hotel te pertence. Construir a sua casa e destruí-la. Construí-la e destruí-la. Construí-la e destruí-la. Construí-la e destruí-la.
Você a constrói todo dia religiosamente. Faz isso com amor e sabendo que terá que destruí-la algumas horas mais tarde, e não por raiva ou por gosto, mas porque tem que ir embora. Você poderia pensar que não quer se apegar a nada se cada cenário é temporário, ou talvez quisesse que o seu amor pelas coisas transbordasse e, assim, finalmente se permitiria sentir o medo, o vazio ou a angústia cada vez que tem que ir para o próximo lugar, mas, em vez disso, você faz o que pode do seu jeito: às vezes chora, frequentemente dissocia e, num dia bom, sussurra um “adeus” que te faz sentir um pouco melhor enquanto fecha a porta, se perguntando se algum dia voltará a entrar ali. Hoje em Las Vegas, amanhã Los Angeles, depois de amanhã em San Diego e por aí vai. Tudo isso é a minha forma de dizer que cada vez que sinto amor por um lugar, também tenho motivos para não querer ir embora, e é também a minha forma de dizer que tenho medo de não ter raízes em lugar nenhum, mas sei que, no fundo, carrego tudo o que importa dentro de mim e há coisas que nunca poderei perder, porque sou e sempre serei um arquivo de tudo aquilo que já amei.
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