A Suno voltou a ser pivô da disputa entre a indústria fonográfica e as empresas de inteligência artificial. O Universal Music Group (UMG) e a Sony Music Entertainment entraram com uma segunda ação contra a plataforma de geração musical, desta vez questionando diretamente o v6, nova família de modelos lançada em setembro com a participação de empresas do mercado musical. A ação foi apresentada em 18 de setembro na Justiça Federal de Massachusetts, nos Estados Unidos.
O processo cita 60.202 gravações que, segundo as duas empresas, teriam sido copiadas sem autorização pela Suno. As gravadoras sustentam que esse número representa somente uma parte do repertório que teria sido usado pela empresa. A Suno contesta as acusações e afirma que o v6 foi desenvolvido a partir de conteúdo licenciado, interações da comunidade e aprendizados acumulados pela equipe.
A questão agora vai além de saber quais músicas foram usadas diretamente no treinamento. UMG e Sony querem que a Justiça determine se um modelo novo pode carregar problemas de direitos autorais de versões anteriores ao aprender com conteúdos produzidos por elas.
Gravadoras questionam origem dos dados usados no v6
O argumento central da nova ação está no uso das chamadas “interações dos usuários”. De acordo com UMG e Sony, a própria Suno reconheceu que o v6 utiliza criações e sinais de preferência produzidos a partir das versões anteriores do serviço. Para as gravadoras, isso significa que dados derivados de modelos supostamente treinados com obras não licenciadas continuariam presentes na nova geração.
As empresas também citam técnicas de transferência de conhecimento entre modelos. De forma simplificada, um sistema mais novo pode aprender a reproduzir comportamentos de um modelo anterior, inclusive por meio dos conteúdos gerados por ele. UMG e Sony defendem que, caso o modelo original tenha aprendido a partir de gravações usadas sem autorização, essa influência não desapareceria simplesmente porque uma nova versão foi treinada.
“O v6 não é um novo começo; é o fruto da mesma árvore envenenada”, afirmam as gravadoras no processo.
Suno lançou nova fase após acordos com empresas da música
O processo chega poucos dias depois de a Suno apresentar o v6 como o início de uma nova etapa da companhia. Lançado em 9 de setembro, o modelo foi desenvolvido em parceria com Warner Music Group, BMG e Believe, segundo a própria empresa. A plataforma também anunciou que deixaria de oferecer as versões anteriores à medida que migrasse para a nova geração.
Esse movimento alterou a relação da Suno com parte da indústria. A Warner, que havia participado da primeira ação judicial contra a empresa em 2024, chegou posteriormente a um acordo e tornou-se parceira da plataforma. BMG e Believe também firmaram acordos que preveem o desenvolvimento de ferramentas e experiências com participação de artistas e detentores de direitos.
A Sony e a UMG, porém, seguem fora desse grupo. Na nova ação, elas argumentam que os acordos de licenciamento mostram que existe um mercado para remunerar titulares pelo uso de seus catálogos no desenvolvimento de inteligência artificial.
Segunda ação abre nova frente na disputa sobre treinamento de IA
A primeira ação das gravadoras contra a Suno foi apresentada em junho de 2024 e discute o treinamento dos modelos iniciais da plataforma. Em setembro deste ano, a própria empresa reconheceu em documento judicial que obteve arquivos de áudio do YouTube para usar como dados de treinamento, embora conteste os argumentos jurídicos apresentados pelas gravadoras sobre esse processo.
A nova disputa pode ajudar a definir outro ponto ainda pouco testado nos tribunais: até que ponto um modelo criado com dados licenciados pode ser considerado separado de versões anteriores quando utiliza resultados, preferências ou conhecimentos produzidos por elas. UMG e Sony pedem indenizações, pagamento de custos jurídicos e o reconhecimento judicial de que a Suno violou seus direitos autorais.
A Suno afirmou que considera as acusações “fundamentalmente falhas tanto nos fatos quanto na lei” e defendeu que seu sistema usa características musicais para permitir novas criações, e não para reproduzir obras existentes. O embate coloca o v6, apresentado pela Suno como resultado de uma aproximação com a indústria musical, em meio a uma discussão que pode influenciar como os futuros acordos de licenciamento para inteligência artificial serão estruturados.
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