O álbum The Fall Off nasce sob o peso da expectativa. Anunciado há anos como possível ponto final da trajetória de J. Cole, ele chega como um gesto calculado: longo, dividido em dois discos, estruturado para funcionar como balanço de carreira. No disco que se apresenta como documento, o rapper parece mais interessado em organizar o próprio legado do que surpreender os ouvintes.
A divisão entre “Disc 29” e “Disc 39” oferece a espinha dorsal conceitual. A ideia é revisitar Fayetteville em dois momentos distintos da vida, usando a cidade natal como lente para observar ambição, sucesso, frustração e maturidade. O retorno ao “Ville” não é apenas geográfico, mas simbólico. Tudo começa e termina ali, como se a identidade do artista fosse inseparável do lugar que o moldou.
No entanto, esse conceito enfrenta um obstáculo evidente: grande parte dessas reflexões já atravessa a discografia de Cole. A relação com a fama, o conflito entre autenticidade e indústria, a solidão do estrelato e o apego às origens são temas recorrentes desde 2014 Forest Hills Drive. Ao retomar essas questões em um suposto álbum final, o rapper vai além de oferecer uma memória, mas uma nova perspectiva.
Disc 29
No primeiro disco, o recorte dos 29 anos aposta em uma energia mais áspera. Há momentos em que J. Cole adota uma postura mais agressiva, encostando em narrativas de rua e explorando uma tensão que muitos críticos sempre disseram faltar em sua obra. Quando ele encontra esse equilíbrio, o disco ganha corpo. A técnica está afiada, o flow seguro e a escrita detalhista.
Ainda assim, existe um paradoxo inevitável: é o Cole de 39 anos que escreve sobre o de 29. A tentativa de “encarnar” o passado soa, por vezes, como reconstrução calculada. Em vez de capturar a incerteza daquele período, algumas faixas parecem regravar emoções com o refinamento que só o tempo traz. O resultado que impressiona tecnicamente, nem sempre emociona com a mesma intensidade.
Musicalmente, o álbum funciona como arquivo afetivo do hip-hop. Samples, interpolações e referências atravessam décadas, conectando Nas, DMX, OutKast e tradições do Sul a um presente que busca continuidade. Cole se posiciona como estudante aplicado da cultura, alguém que conhece as bases e quer dialogar com elas. Essa curadoria é consistente e ajuda a sustentar a ideia de síntese.
O problema surge quando o tributo se aproxima demais da reverência didática. Em alguns momentos, The Fall Off parece querer explicar o hip-hop, mostrando uma certa ambição de encapsular uma história coletiva dentro de uma narrativa pessoal torna o disco mais cerebral do que passional.
Disc 39
É no segundo disco, “Disc 39”, que o projeto encontra maior coerência. Aqui, a maturidade é assumida e faixas como “The Fall-Off Is Inevitable” trabalham com a ideia de tempo reverso e finitude de maneira mais orgânica, transformando o conceito em experiência concreta. O tom, no final, é menos performático e mais reflexivo.
O contexto recente da saída de J. Cole de um dos maiores confrontos midiáticos do rap também paira sobre o álbum. Em vez de alimentar o espetáculo, ele opta por refletir sobre masculinidade, ego e a lógica da competição como entretenimento. Não há grandes revelações, mas há consistência na escolha de se posicionar fora do ruído.
Entre altos e baixos, o disco atinge seu ponto mais sincero quando abandona a tese e volta ao cotidiano. Em “Quik Stop”, ao narrar um encontro simples com um fã, Cole parece reencontrar o sentido do que faz. Ali, o rap deixa de ser disputa e vira conexão.
O adeus de J. Cole
No fim, The Fall Off não é a obra definitiva que o anúncio de despedida sugeria, mas é um retrato honesto de um artista em transição. Não há explosão final nem reinvenção radical. O que existe é um esforço consciente de organizar a própria trajetória e aceitar que legado se constrói ao longo do tempo.
Se este for realmente o último capítulo, ele encerra a história de maneira coerente com quem J. Cole sempre foi: um rapper mais preocupado em entender o próprio caminho do que em dominar o mapa inteiro.
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