O empresariamento artístico voltou ao centro das discussões do mercado musical internacional após a divulgação de um amplo estudo da European Music Managers Alliance, a EMMA. Baseado em uma pesquisa com 330 empresárias e empresários musicais de mais de 30 países, o relatório traça um retrato direto de uma profissão altamente qualificada, mas marcada por fragilidades estruturais.
O diagnóstico europeu dialoga de forma direta com o momento brasileiro. Em paralelo à divulgação do estudo da EMMA, está em andamento no Brasil a quinta edição da Pesquisa Empresariamento Artístico, conduzida por Anita Carvalho, que desde 2017 investiga modelos de negócio, relações contratuais e condições de trabalho no empresariamento local.
Logo na primeira frase, o relatório europeu define o tom: trata-se de uma profissão moldada por volatilidade de renda, risco nas turnês, dificuldade de acesso a financiamento e pressão cada vez maior sobre a saúde mental. Um retrato que ajuda a entender por que o empresariamento continua sendo uma engrenagem central da indústria, mas ainda pouco estruturada como atividade econômica.
O retrato europeu do empresariamento em números
O levantamento da EMMA mostra que o empresariamento musical na Europa funciona, majoritariamente, como uma economia de microempresas. Mais da metade das pessoas entrevistadas administra seu próprio escritório de forma independente, sem funcionários fixos, recorrendo a freelancers conforme a demanda.
Um dado chama atenção pela clareza do risco envolvido: 56,3% das empresárias e empresários afirmam que a principal fonte de investimento na carreira de seus artistas vem de recursos próprios, como poupança pessoal ou renda individual. Ou seja, o desenvolvimento artístico, em muitos casos, é financiado diretamente por quem faz a gestão da carreira.
A renda também aparece como um ponto sensível. Quase metade das pessoas entrevistadas declarou ganhos anuais abaixo de 20 mil euros, mesmo com jornadas extensas de trabalho. O estudo mostra que trabalhar mais horas aumenta a chance de rendimentos maiores, mas não garante estabilidade financeira, evidenciando um modelo de negócio exposto a ciclos longos de retorno.
As turnês continuam como a principal fonte de receita dos artistas, mas nem sempre se traduzem em lucro. Em mercados como o Reino Unido, menos da metade das pessoas gestoras afirmou que as turnês de seus artistas são, de fato, lucrativas. O empresariamento, nesse cenário, acaba absorvendo riscos em um ambiente de custos elevados e margens apertadas.
Sobrecarga, múltiplas funções e pressão emocional
Outro ponto central do relatório é a ampliação do escopo de atuação no empresariamento. Com estruturas enxutas, muitas empresárias acumulam funções estratégicas, operacionais, financeiras e até de cuidado pessoal com os artistas. Longas jornadas e ausência de equipes fixas aparecem como fatores recorrentes.
Essa sobrecarga tem impacto direto no bem-estar. Mais da metade das pessoas entrevistadas afirmou já ter enfrentado problemas de saúde mental relacionados ao trabalho. O relatório trata a questão não como algo individual, mas como consequência direta das condições estruturais da atividade.
Para a EMMA, o empresariamento não pode mais ser visto apenas como prestação de serviços. O relatório defende o reconhecimento do papel dessas profissionais como construtoras de negócios criativos, responsáveis por viabilizar carreiras, empregos indiretos e circulação econômica no setor musical.
No Brasil, pesquisa busca abrir a caixa-preta do empresariamento
Enquanto a Europa consolida dados em escala continental, o Brasil vive um momento importante de escuta e mapeamento. A quinta edição da Pesquisa Empresariamento Artístico, idealizada por Anita Carvalho, convida artistas, empresárias, produtoras e profissionais da gestão de carreiras a responderem um questionário detalhado sobre práticas reais do empresariamento no país.
A pesquisa investiga temas sensíveis como percentuais de comissão praticados, modelos contratuais, fontes de receita, uso de leis de incentivo, participação em editais e a percepção sobre formação profissional na área. Também busca entender como artistas e empresárias enxergam a natureza dessa relação: parceria, prestação de serviços ou algo que varia caso a caso.
Desde 2017, o estudo já gerou quatro relatórios públicos e se consolidou como uma das poucas iniciativas sistemáticas voltadas a compreender o empresariamento artístico no Brasil. A edição atual conta com apoio institucional de entidades como UBC, ESPM, SIM São Paulo e Music Rio Academy.
Os dados brasileiros sobre o setor
No Brasil, os dados mais recentes disponíveis sobre empresariamento artístico vêm da edição de 2023 da pesquisa coordenada por Anita Carvalho, que ouviu 379 artistas e profissionais de 20 estados. O levantamento revelou um mercado marcado por fragilidade estrutural: apenas 4% dos artistas declararam ter empresária ou empresário, enquanto 54% atuavam sem qualquer gestão profissional e outros 42% acumulavam a função de gerir a própria carreira. O resultado expõe um cenário em que o empresariamento segue pouco acessível, concentrado e longe de se consolidar como prática disseminada no mercado musical brasileiro.
Entre os profissionais que atuam no setor, o perfil identificado em 2023 reforça esse desenho de baixa escala e alta sobrecarga. A média era de cinco artistas por empresário, com metade deles atendendo até três carreiras simultaneamente, e apenas 12% gerindo mais de dez artistas.
Os serviços prestados mostram acúmulo de funções, com agenciamento de shows e produção logística aparecendo em praticamente todos os casos, seguidos por gestão financeira e mídias sociais, o que aponta para baixa especialização e informalidade operacional. Mesmo assim, os dados indicaram que artistas com empresariamento apresentavam níveis de satisfação 23% maiores em relação à própria carreira, evidenciando o papel estratégico da atividade, apesar de suas limitações estruturais.
Ao conectar dados europeus e brasileiros, fica evidente que o empresariamento enfrenta desafios comuns em diferentes mercados. A diferença está no grau de visibilidade desses problemas e na existência, ou não, de dados para embasar políticas, formação e novos modelos de negócio.
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