O maximalismo criativo está redefinindo a maneira como os jovens produzem, interpretam e compartilham conteúdo. Um relatório da equipe de Cultura e Tendências do YouTube descreve uma linguagem formada por excesso de estímulos visuais, referências de nicho, influências internacionais e histórias que continuam a ser desenvolvidas pelo público.
Produzido a partir da análise de centenas de tendências e de pesquisas conduzidas com a SmithGeiger, o estudo ouviu pessoas ativas online entre 14 e 49 anos. No Brasil, 74% dos jovens de 14 a 24 anos acreditam que pessoas de sua idade têm grande impacto sobre o que se fala na internet, diante de 61% entre os adultos de 25 a 49 anos.
A mudança interessa diretamente ao mercado da música. Faixas, coreografias, estéticas visuais e personagens podem nascer em uma plataforma, ser modificados por comunidades e retornar em novos vídeos, versões ou memes. Em vez de somente receber um lançamento, parte do público espera encontrar maneiras de participar dele.
A partir do relatório, o Guia MM reúne cinco passos para pensar estratégias nesse cenário.
1. Pense primeiro no ambiente digital
A primeira orientação é tratar o digital como o espaço onde a experiência cultural acontece, e não apenas como uma vitrine para divulgar produtos. O relatório lembra que os adolescentes atuais formam a primeira geração que não conheceu um mundo sem YouTube. Vídeo, jogos, redes sociais e comunidades online fazem parte de como esses jovens se informam, constroem relações e desenvolvem gostos.
No Brasil, 60% dos entrevistados entre 14 e 49 anos afirmam sentir mais empolgação diante de novos conteúdos de criadores do que de novos programas de televisão ou filmes. Outro estudo citado pelo documento, produzido pela Deloitte, indica que a geração Z passa 26% menos tempo assistindo a filmes e televisão do que a média da população.
Para um artista, isso significa pensar no lançamento desde sua origem: quais imagens, trechos, histórias ou elementos podem circular em vídeos? Como o público vai descobrir aquela música? E o que poderá fazer depois de ouvi-la?
2. Conheça a linguagem antes de usá-la
A linguagem da internet não se resume a inserir uma gíria ou acompanhar um meme popular. Ela depende de referências acumuladas, piadas internas e códigos compreendidos por determinadas comunidades. No Brasil, 70% dos jovens dizem usar palavras ou gírias aprendidas em vídeos ou memes, enquanto 57% afirmam que seu senso de humor foi moldado pela internet.
O relatório usa o universo dos memes com gatinhos para mostrar como uma imagem simples pode carregar várias camadas. Cada gato representa uma emoção ou situação já conhecida por quem acompanha aquele repertório. O “Spinning Cat”, por exemplo, saiu desse contexto e virou tema de uma música que chegou à 11ª posição da parada global do YouTube.
Antes de levar uma tendência para a comunicação de um artista, é necessário entender de onde ela veio, quem participa daquela conversa e por que o conteúdo funciona. A reprodução superficial pode afastar justamente o público que reconhece seus códigos.
3. Trabalhe com mais camadas audiovisuais
O maximalismo criativo também aparece em vídeos com cortes rápidos, textos, imagens sobrepostas, referências e diferentes ações na mesma tela. A estética conversa com jovens acostumados às interfaces de jogos, aos animes, aos vídeos curtos e às ferramentas de edição disponíveis no celular.
Um dos exemplos é “Skibidi Toilet”, série criada por Alexey Gerasimov sobre uma guerra entre privadas com cabeças humanas e personagens com equipamentos eletrônicos no lugar do rosto. Entre 2023 e 2025, o fenômeno gerou mais de 4 milhões de uploads relacionados.
Isso não exige que toda comunicação se torne barulhenta ou confusa. Para a música, a lição está em explorar formatos que combinem letra, performance, comentários, bastidores e referências visuais sem perder o fio principal da mensagem.
4. Transforme o público em colaborador
A cocriação ocorre quando os fãs produzem artes, remixes, coreografias, teorias e novas histórias a partir de uma obra. O relatório mostra que esse comportamento deixou de ser uma atividade paralela e passou a integrar a própria circulação do conteúdo.
O projeto “EPIC: The Musical”, de Jorge Rivera-Herrans, nasceu como uma adaptação de “A Odisseia” e superou 115 milhões de visualizações em 30 músicas. Desde 2021, mais de 50 mil vídeos relacionados foram publicados, incluindo animações e trabalhos desenvolvidos pela comunidade.
Para artistas e gravadoras, abrir espaço para cocriação pode significar disponibilizar instrumentais, destacar interpretações dos fãs, propor narrativas abertas ou apresentar elementos que possam ser adaptados. A participação funciona melhor quando o público tem liberdade para acrescentar algo próprio.
5. Preserve o vínculo emocional
Apesar das novas ferramentas, o relatório afirma que algumas motivações permanecem iguais. Os jovens continuam interessados em formar identidades, construir comunidades e encontrar conteúdos que representem o mundo em que vivem.
O documento cita o “Italian brain rot”, universo de personagens absurdos gerados por inteligência artificial que ultrapassou 450 mil uploads em 2025. O fenômeno combina os quatro pilares do maximalismo criativo: complexidade audiovisual, cocriação, referências da internet e influência global.
A tecnologia ajuda a explicar a velocidade e a escala desses movimentos, mas não substitui a identificação. Uma estratégia pode adotar inteligência artificial, edições aceleradas e referências globais, desde que exista uma história capaz de aproximar artistas e comunidades.
A influência digital também chega ao estilo e aos hábitos

O relatório mostra que a relação com os criadores não termina quando o vídeo acaba. Entre os jovens de 14 a 24 anos, 61% afirmam ter incorporado hábitos, tradições ou rituais aprendidos com criadores online. Outros 59% dizem que o conteúdo visto na internet influenciou seu estilo pessoal, segundo o levantamento realizado nos Estados Unidos. Os dados ajudam a dimensionar como as plataformas participam da formação de gostos que depois aparecem na moda, na linguagem e no consumo cultural.
Essa circulação também ocorre entre diferentes países. A animação francesa “Le Poisson Steve” somou mais de 90 milhões de visualizações em vídeos longos e Shorts em 2025. Já “Alien Stage”, série sul-coreana sobre uma competição musical em um planeta alienígena, conquistou uma audiência internacional, com os Estados Unidos respondendo pela maior parcela das visualizações naquele ano. Na música, o phonk brasileiro é citado como resultado de uma trajetória que reúne o hip-hop do sul dos Estados Unidos, a música eletrônica do Leste Europeu e novas adaptações feitas no Brasil.
Os exemplos mostram que o maximalismo criativo não pode ser reduzido a vídeos carregados de estímulos. Ele nasce da combinação entre repertórios internacionais, ferramentas acessíveis, participação das comunidades e uma geração habituada a transformar referências em novas criações. Para artistas e profissionais da música, os cinco passos funcionam como um ponto de partida para desenvolver estratégias que compreendam essa lógica sem apenas copiar sua aparência.
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