O Spotify divulgou a nova edição do relatório “Loud & Clear”, iniciativa criada pela empresa para explicar o funcionamento econômico do streaming e apresentar dados sobre pagamentos de royalties na plataforma. O principal número do estudo já havia sido antecipado antes da divulgação completa: mais de US$ 11 bilhões pagos à indústria da música em 2025.
Com esse resultado, o total acumulado de pagamentos do Spotify desde sua criação se aproxima de US$ 70 bilhões, considerando royalties de gravação e edição. Segundo a empresa, os valores foram distribuídos para gravadoras, distribuidoras, editoras, sociedades de direitos autorais e outros titulares que representam artistas e compositores.
O relatório tenta mostrar como o streaming se consolidou como o principal motor financeiro da indústria musical. Ao mesmo tempo, ele levanta questões sobre metodologia, distribuição de renda e transparência na forma como esses valores são calculados e repassados ao longo da cadeia de direitos.
Antes de analisar os números, o documento também tenta responder a uma crítica frequente do mercado: a ideia de que o streaming teria reduzido o valor da música. O Spotify afirma que o setor hoje é maior do que era no auge da era física. Segundo dados citados pela empresa com base no relatório global da IFPI – International Federation of the Phonographic Industry, a receita global da música gravada caiu de US$ 24 bilhões em 1999 para US$ 13 bilhões em 2014, período marcado pelo impacto da pirataria. Desde então, o mercado teria voltado a crescer, alcançando cerca de US$ 29,6 bilhões.
Considerando esse contexto, o Loud & Clear tenta apresentar um retrato da economia do streaming em três frentes: crescimento do volume de royalties, expansão do número de artistas monetizados e transformação da circulação global da música.
Como o dinheiro do streaming circula
Uma parte central do relatório é explicar como funciona o fluxo de dinheiro dentro do streaming. O Spotify afirma que não paga artistas ou compositores diretamente na maioria dos casos. Em vez disso, a empresa paga os titulares de direitos, que podem ser gravadoras, distribuidoras, editoras ou sociedades de gestão coletiva.
A receita da plataforma vem principalmente de duas fontes: assinaturas do plano Premium e publicidade no plano gratuito. Segundo a empresa, cerca de dois terços dessa receita entram no chamado “pool de royalties”, que será distribuído aos titulares. O restante é reinvestido na plataforma, em busca de avanços na tecnologia do streaming e novas ferramentas para os usuários. Foi isso o que revelou Sam Duboff, chefe de marketing e políticas internas do Spotify, em entrevista coletiva com a presença dos principais veículos do music business em nível global – inclusive o Mundo da Música.
Esse valor é dividido por um sistema chamado streamshare. Em vez de pagar um valor fixo por reprodução, o modelo calcula qual porcentagem de todos os streams da plataforma pertence a cada artista ou catálogo. Se um artista representa 1% das reproduções em determinado mercado, os titulares de direitos desse artista recebem cerca de 1% do pool gerado naquele mercado.
O relatório insiste que o conceito de “valor por stream” é uma simplificação que não representa o funcionamento real do sistema. Como os usuários não pagam por faixa ouvida, mas sim por acesso ao catálogo, o valor final depende do tamanho do pool e da participação relativa de cada artista.
Para ajudar a contextualizar esse mecanismo, o Spotify apresenta uma referência: capturar 1 em cada 1 milhão de streams globais em 2025 gerou, em média, cerca de US$ 11 mil em royalties. Em 2014, o mesmo nível de participação teria gerado aproximadamente US$ 1 mil, segundo o relatório.
O crescimento do volume de royalties
O dado mais divulgado da edição 2025 do Loud & Clear é o pagamento de mais de US$ 11 bilhões em royalties no último ano. O Spotify afirma que esse valor representa um crescimento superior a 10% em relação ao ano anterior e é mais que o dobro do ritmo de crescimento de outras fontes de receita da indústria musical.
Segundo o relatório, a plataforma também teria se tornado o maior varejista de música do mundo em termos de pagamento de royalties. A empresa afirma que nenhum outro serviço ou formato de distribuição teria distribuído valores tão altos em um único ano.
Outro ponto destacado é a participação de artistas independentes. De acordo com o documento, aproximadamente metade dos royalties pagos em 2025 foi destinada a artistas ou titulares independentes, categoria que inclui artistas no modelo do it yourself, selos independentes e distribuidores digitais.
A expansão da chamada “classe média” da música

Um dos argumentos centrais do relatório é que o streaming teria aumentado o número de artistas capazes de gerar renda “relevante” com música. O Spotify destaca que 13.800 artistas geraram pelo menos US$ 100 mil em royalties na plataforma em 2025.
Segundo a empresa, esse número representa um crescimento significativo em comparação com anos anteriores. O relatório afirma que hoje existem mais artistas que recebem acima de US$ 100 mil do que havia artistas acima de US$ 50 mil cinco anos atrás.
Na faixa imediatamente abaixo, 24.700 artistas geraram pelo menos US$ 50 mil em royalties em 2025. Esses valores representam a receita gerada apenas no Spotify, antes da divisão entre participantes da cadeia de direitos.
O topo do streaming também cresceu
O relatório também apresenta dados sobre a expansão das receitas entre os artistas mais populares da plataforma.
Segundo o Spotify, mais de 80 artistas geram atualmente mais de US$ 10 milhões por ano apenas com royalties do Spotify. A empresa utiliza uma comparação histórica para contextualizar esse crescimento.
De acordo com o relatório, há cerca de dez anos apenas o artista mais ouvido da plataforma atingia esse nível de receita anual. Hoje, segundo a empresa, esse patamar foi alcançado por dezenas de artistas.
Além disso, mais de 1.500 artistas geraram mais de US$ 1 milhão em royalties no Spotify em 2025. O relatório destaca que muitos desses artistas não são nomes globalmente conhecidos e que parte significativa deles nunca teve um hit no Top 50.
Crescimento aparece nas posições mais baixas
O Spotify também utiliza o ranking de royalties para ilustrar mudanças na base da indústria.
Em 2025, o 100.000º artista mais bem remunerado da plataforma gerou mais de US$ 7.300 em royalties. Em 2015, o artista na mesma posição gerava cerca de US$ 350.
Segundo o relatório, isso representa um aumento superior a 20 vezes em dez anos. A empresa argumenta que esse dado mostra que o crescimento da economia do streaming não estaria restrito apenas ao topo do mercado.
O papel das playlists na descoberta de artistas
O Loud & Clear também dedica espaço para discutir a descoberta de artistas dentro da plataforma. Um dos exemplos utilizados é o ecossistema de playlists Fresh Finds, voltado a artistas emergentes.
De acordo com o Spotify, mais de 1 em cada 10 artistas que atualmente geram mais de US$ 100 mil na plataforma apareceu primeiro em uma playlist Fresh Finds.
A empresa afirma ainda que artistas incluídos nessas playlists costumam ver seus royalties mais do que dobrarem no ano seguinte após a inclusão. O relatório não detalha quantos artistas são selecionados anualmente para essas playlists.
Distribuição independente ganha peso

Outro ponto enfatizado no relatório é o crescimento do modelo de distribuição independente. Segundo os dados apresentados, mais de um terço dos artistas que geraram pelo menos US$ 10 mil no Spotify são artistas DIY ou começaram a carreira dessa forma.
O termo DIY refere-se a artistas que lançam suas músicas por meio de distribuidoras digitais independentes, sem contratos tradicionais com gravadoras. O relatório afirma que esse modelo tem sido especialmente comum entre artistas que começaram suas carreiras na última década.
Streaming e circulação global da música
O Loud & Clear também destaca mudanças na circulação geográfica da música. Segundo o relatório, dois anos após o primeiro lançamento, muitos artistas já passam a receber mais da metade de seus royalties de ouvintes fora do país de origem.
Em 2025, os artistas que geraram mais de US$ 500 mil em royalties no Spotify representaram 75 países diferentes, contra 66 países no ano anterior. O relatório também afirma que artistas de mais de 150 países geraram pelo menos US$ 10 mil na plataforma.
Mais idiomas chegam ao topo das paradas
Outro indicador apresentado pela empresa é a expansão linguística do streaming global. Em 2025, músicas em 16 idiomas diferentes apareceram no Spotify Global Top 50. Segundo o relatório, esse número é mais que o dobro do registrado em 2020.
Entre os gêneros que mais cresceram em royalties dentro da plataforma em 2025, o Spotify destaca o funk brasileiro, o K-pop, o trap latino, o urban latino e o reggaeton.
Publishing e compositores

O relatório também apresenta dados sobre os pagamentos relacionados a direitos autorais de composição.
Segundo o Spotify, US$ 5 bilhões foram pagos a titulares de direitos editoriais nos últimos dois anos. O documento afirma que os pagamentos de publishing cresceram 2,5 vezes nos últimos cinco anos.
Esses valores são pagos a editoras, sociedades de gestão coletiva e outras entidades responsáveis por representar compositores.
Streaming e impacto em shows
Outro ponto abordado no relatório é a relação entre streaming e vendas de ingressos.
Segundo o Spotify, mais de US$ 1,5 bilhão em vendas de ingressos para shows foram impulsionados pela plataforma. A empresa afirma que quase 40% dos artistas em turnê tiveram aumento de pelo menos 10% na receita associada ao Spotify quando ingressos são incluídos na conta.
O relatório não detalha completamente a metodologia usada para atribuir essas vendas diretamente à plataforma.
Cinco lacunas do relatório
Apesar da quantidade de dados apresentados, o Loud & Clear também deixa algumas questões abertas.
A primeira envolve a metodologia de alguns indicadores, especialmente no caso das vendas de ingressos associadas à plataforma. O relatório apresenta números agregados, mas não explica em profundidade como esses cálculos são feitos.
Outra lacuna é a dificuldade de comparação entre plataformas. Como o modelo de streaming funciona por participação no pool de royalties, e não por pagamento fixo por reprodução, os artistas continuam tentando traduzir esse sistema em referências comparáveis entre os diferentes serviços.
O relatório também apresenta estimativas sobre o número de artistas profissionais no streaming, sugerindo que cerca de 225 mil artistas globalmente estariam buscando carreira profissional. Esse número, porém, é baseado em critérios definidos pela própria empresa, e serviriam para justificar os ganhos baixos da maioria dos artistas no Spotify.
Há também um debate em torno da política que exige 1.000 streams anuais para que uma faixa gere royalties de gravação. O Spotify afirma que essa regra redireciona o dinheiro do pool para artistas que constroem carreiras na plataforma, mas o relatório não apresenta visões divergentes sobre essa decisão.
Por fim, o documento mostra o crescimento do volume de royalties pagos, mas não aprofunda questões relacionadas a gargalos de metadados, cadastro de obras ou atrasos de pagamento na cadeia de direitos, temas frequentemente discutidos por artistas e compositores.
Um retrato da economia do streaming
O Loud & Clear apresenta um panorama amplo da economia do streaming na última década. Os números divulgados pelo Spotify indicam crescimento no volume total de royalties e no número de artistas que conseguem gerar receita relevante na plataforma.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre remuneração e transparência continua presente no mercado musical. À medida que o streaming se consolida como o principal formato de consumo de música no mundo, entender como esse sistema funciona e como a renda é distribuída ao longo da cadeia de direitos se torna uma questão central para artistas, compositores e profissionais da indústria.
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