A Live Nation, maior empresa de entretenimento ao vivo do mundo e controladora da Ticketmaster, chegou a um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) para encerrar parte do processo antitruste que ameaçava desmembrar a companhia. O entendimento foi anunciado em 9 de março de 2026, poucos dias depois do início do julgamento federal em Nova York.
O caso é considerado um dos mais relevantes da história recente da indústria musical. A ação original acusava a empresa de usar seu domínio sobre promoção de shows, gestão de casas de espetáculo e venda de ingressos para bloquear concorrentes e manter um monopólio no mercado de eventos ao vivo.
A disputa vinha se arrastando há anos. Antes do julgamento, a Live Nation apresentou uma série de recursos e pedidos processuais para reduzir o alcance da ação, contestar provas e tentar adiar o caso. O juiz Arun Subramanian rejeitou essas tentativas e manteve os principais pontos da disputa para julgamento. O processo acabou sendo breve: após poucos dias de depoimentos, a empresa negociou um acordo com o governo federal.
A longa disputa entre Live Nation e o governo dos EUA
A origem do conflito remonta a 2010, quando a fusão entre Live Nation e Ticketmaster foi aprovada pelo governo americano com uma série de restrições regulatórias conhecidas como “consent decree”. Essas regras proibiam a empresa de retaliar as casas de show que escolhessem outras plataformas de venda de ingressos.
Nos anos seguintes, as autoridades passaram a suspeitar que essas condições estavam sendo descumpridas. Em 2019, o Departamento de Justiça chegou a abrir uma investigação para apurar denúncias de pressão contra casas de espetáculo que cogitavam trabalhar com concorrentes.
O tema ganhou ainda mais visibilidade em 2022, quando a venda de ingressos para a “The Eras Tour”, de Taylor Swift, colapsou no sistema da Ticketmaster e gerou indignação pública. A crise reacendeu discussões sobre concentração de mercado e levou parlamentares e reguladores a intensificarem o escrutínio sobre a empresa.
Em maio de 2024, o Departamento de Justiça e 30 procuradores-gerais estaduais finalmente entraram com uma ação antitruste pedindo medidas estruturais contra a companhia. Entre as possibilidades estava até mesmo a separação entre Live Nation e Ticketmaster.
A empresa tentou atrasar o julgamento com recursos e pedidos de arquivamento parcial. Nenhum deles deu certo. Em fevereiro de 2026, o juiz federal Arun Subramanian rejeitou novas tentativas de adiamento e determinou o início do julgamento.
O processo começou em 2 de março. Uma semana depois, porém, as partes anunciaram que haviam chegado a um acordo preliminar.
O que muda para a Live Nation após o acordo
O acordo evita a divisão da empresa, mas impõe uma série de mudanças no funcionamento do mercado de ingressos nos Estados Unidos.
Uma das principais medidas envolve a abertura do sistema da Ticketmaster para concorrentes. A empresa terá de permitir que outras plataformas, como SeatGeek ou StubHub, vendam ingressos usando sua infraestrutura tecnológica.
Outra mudança relevante envolve as taxas cobradas dos fãs. O acordo estabelece um teto de 15% para as taxas de serviço cobradas em anfiteatros controlados pela Live Nation. A empresa também terá de vender ou abrir mão de 13 contratos exclusivos de operação de anfiteatros. Esses espaços passarão a funcionar como locais “abertos”, permitindo que diferentes promotores organizem eventos nos espaços.
Além disso, casas de espetáculo poderão escolher vender parte dos ingressos por plataformas concorrentes. Em alguns casos, até 50% dos ingressos poderão ser distribuídos fora da Ticketmaster.
O acordo também inclui a criação de um fundo de US$ 280 milhões para lidar com pedidos de indenização apresentados por estados americanos. Outro ponto importante é a extensão por oito anos do acordo regulatório firmado com o governo em 2010, o que mantém a empresa sob supervisão federal por mais tempo.
Estados e críticos dizem que acordo é insuficiente
Apesar de encerrar o processo federal, o acordo está longe de pacificar o tema. Mais de vinte estados americanos afirmaram que pretendem continuar litigando contra a Live Nation, alegando que o acordo não resolve o problema central do mercado. A principal crítica é que a empresa continuará integrada verticalmente, controlando promoção de shows, casas de espetáculo e venda de ingressos.
Para alguns especialistas em direito concorrencial, a decisão de não dividir a companhia reduz o potencial de mudança estrutural no setor. Também seguem sem solução alguns dos temas que mais geram reclamações entre fãs e artistas, como o funcionamento do mercado de revenda de ingressos e o processo de venda inicial de grandes turnês.
Outro ponto frequentemente citado é o acesso de artistas aos dados de compradores de ingressos, algo que muitos músicos afirmam ser limitado pelo sistema atual.
Impacto fora dos Estados Unidos

Embora o processo tenha grande repercussão global, o acordo tem efeito direto apenas sobre as operações da Live Nation nos Estados Unidos. As medidas impostas dizem respeito principalmente a contratos com casas de espetáculo americanas e ao funcionamento da venda primária de ingressos no país.
Mesmo assim, especialistas apontam que o caso pode influenciar debates regulatórios em outros mercados, especialmente na Europa e no Reino Unido, onde as autoridades também monitoram a concentração do setor de eventos ao vivo.
Para a empresa, o acordo encerra um dos maiores riscos regulatórios de sua história recente. Logo após o anúncio, as ações da Live Nation subiram na bolsa de Nova York, refletindo o alívio de investidores com o fim da incerteza sobre um possível desmembramento da companhia.
Ainda assim, a disputa sobre o poder da empresa no mercado de shows e ingressos deve continuar nos tribunais estaduais e no debate político nos próximos anos.
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