Há recordes que funcionam como curiosidade, bons para preencher rodapé de matéria. E há recordes que reorganizam a leitura de uma era, porque revelam como uma instituição passou a enxergar a cultura que antes tratava com distância. O feito de Kendrick Lamar no Grammy entra nessa segunda categoria: ao alcançar 27 estatuetas e se tornar o rapper mais premiado da história da premiação, superando a marca anterior de Jay-Z, ele não apenas ampliou a própria coleção, mas cristalizou um deslocamento de centro que já vinha acontecendo há anos.
O dado que completa o quadro torna essa conquista ainda mais eloquente. Kendrick foi o artista com mais vitórias no Grammy do ano passado e repetiu o topo agora, somando cinco troféus em cada edição. Em 2025, liderou a noite com cinco vitórias; em 2026, voltou a sair como principal vencedor, também com cinco.
Em termos de “domínio consecutivo” do evento, a memória inevitável é Stevie Wonder, que foi o maior vencedor das cerimônias de 1974 e 1975, um período em que sua música ajudava a redesenhar a gramática do pop e do soul para a indústria inteira.
Não é uma comparação estética, nem uma disputa de tamanhos entre artistas de mundos diferentes, mas um paralelo de lugar histórico: quando o mesmo nome lidera o Grammy em anos seguidos, a premiação passa a agir como “cartório” simbólico de uma época, atestando o impacto do artista para esse momento da história da música.
Um fenômeno difícil de ignorar
O Grammy sempre se apoiou numa hierarquia implícita. A música pop, em suas várias versões, ocupava o coração do espetáculo; enquanto e o rap, apesar de central na cultura há décadas, frequentemente era tratado como um cômodo separado dentro da mesma casa.
O ponto de virada do recorde de Kendrick está no fato de que ele não venceu apenas porque se tornou um nome inevitável dentro das categorias de rap, mas porque sua presença passou a atravessar o evento como eixo de sentido, inclusive no campo mais prestigioso da noite.
Em 2026, por exemplo, além de ampliar a contagem total e garantir o marco histórico, Kendrick venceu a Gravação do Ano com “Luther”, ao lado de SZA, numa disputa que costuma servir como vitrine de consenso estético do mainstream. Essa vitória também deu a ele um detalhe que ajuda a entender o momento institucional: a premiação confirmou um segundo ano consecutivo, já que “Not Like Us” levou a mesma categoria em 2025.
Quando um rapper não apenas aparece na conversa superficial e se torna recorrente nela, a Academia está assumindo, mesmo que a contragosto, que o rap já não é um satélite cultura da pop. O rap, na verdade, é o eixo central da indústria musical nos tempos atuais.
A relevância de Kendrick Lamar
Parte da relevância desse recorde vem da natureza da obra de Kendrick e da forma como ela dialoga com os critérios do Grammy, que tradicionalmente premia uma combinação de excelência técnica, impacto cultural e narrativa de carreira.
“Not Like Us”, em 2025, foi um caso-limite: um diss track transformado em evento popular, coroado com um conjunto de cinco vitórias, incluindo duas das categorias mais cobiçadas. Em 2026, a dinâmica mudou de roupa, mas manteve o núcleo: ele voltou a acumular prêmios em rap e, ao mesmo tempo, reafirmou poder no tabuleiro maior, com a Gravação do Ano e com o aumento da sua contagem histórica de estatuetas.
O que o Grammy parece reconhecer, no caso de Kendrick, é um tipo de “autoridade artística” que funciona em duas camadas. Numa, ele é um rapper de escrita densa, com domínio de performance, escolha de beats e construção narrativa. Noutra, ele é um artista de álbum e de impacto, alguém capaz de condensar temas sociais, tensões de identidade e retratos de cidade em peças que circulam como canções e como comentário cultural.
O recorde, então, não se resume a uma contagem; ele vira um selo de que a Academia sabe que precisa acompanhar o tempo, e que parte do tempo, hoje, passa por Kendrick.
O horizonte de K-Dot
No curto prazo, o efeito mais visível desse acúmulo de troféus é a mudança de patamar na conversa sobre legado. Até pouco tempo atrás, qualquer discussão sobre o maior rapper de todos os tempos orbitava nomes consolidados por décadas de influência, vendas e impacto cultural. Kendrick sempre esteve nesse debate, mas ainda como herdeiro de uma linhagem.
O recorde altera essa percepção porque oferece algo que poucos artistas possuem: reconhecimento institucional em escala histórica somado a relevância criativa contínua. Com 27 Grammys, liderança em duas edições consecutivas e presença constante nas categorias mais importantes, sua trajetória passa a ter um tipo de chancela que a indústria costuma reservar a figuras incontornáveis.
O prêmio não determina grandeza artística, mas ajuda a sedimentar narrativas públicas, e nesse campo Kendrick já acumula evidências difíceis de contestar. Seus números, sua obra e o momento cultural convergem de tal maneira que a discussão deixa de ser promessa e passa a ser presente. Ele já não é apenas um dos grandes de sua geração. O recorde o credencia, desde agora, a ser tratado como parâmetro máximo de sua época e um candidato legítimo ao posto de maior da história enquanto ainda está em atividade.
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