O debate sobre a presença feminina no mercado musical ganhou novos contornos nos últimos anos. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), o tema volta ao centro das discussões na indústria. Mais mulheres estão compondo, cantando, produzindo e ocupando funções estratégicas dentro do setor. Ainda assim, a participação feminina nos espaços de decisão, nos principais créditos autorais e nas estruturas de liderança segue distante de um equilíbrio.
O próprio sistema de gestão coletiva brasileiro ajuda a ilustrar esse cenário. Dados do relatório “Mulheres na Música 2026”, do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), indicam que os rendimentos femininos em direitos autorais cresceram 33% em 2025. Ao mesmo tempo, mulheres ainda representam cerca de 10% das pessoas físicas que recebem esses valores no país.
Os números mostram que há avanços, mas também revelam que a desigualdade continua presente em diferentes camadas do mercado musical. Para entender melhor como enfrentar esse cenário, o Guia MM ouviu profissionais de diferentes áreas da indústria, que compartilham caminhos possíveis para aumentar a presença feminina na música.
Como abrir espaço para mulheres no mercado musical
Abrir espaço para mulheres na indústria musical não depende apenas de mudanças estruturais de longo prazo. Em muitos casos, começa com decisões cotidianas que moldam equipes, processos criativos e ambientes de trabalho. Quem é convidado para integrar uma banda, participar de uma gravação ou assumir uma função dentro de uma empresa acaba influenciando diretamente a formação dessas redes profissionais.
Para Marina Mattoso, CEO da Jangada Comunicação, esse movimento começa com escolhas conscientes dentro da própria indústria.
“É preciso ter intenção. Todas essas questões passam por escolhas conscientes. Um exemplo recente é o Tiny Desk da Duquesa, cuja banda era formada apenas por mulheres. Tenho certeza de que montar essa formação foi mais difícil do que seria optar por uma banda mista ou majoritariamente masculina. Talvez até mais caro, já que as opções disponíveis ainda são menores. Ainda assim, houve a decisão de fazer parte desse movimento, mesmo que isso exigisse mais esforço ou recursos.”
Essa lógica não se limita aos palcos. A forma como empresas estruturam suas equipes também influencia diretamente quem terá acesso às oportunidades dentro do setor.
“O mesmo vale para a indústria. Ao abrir processos seletivos, é importante ter esse olhar como critério de escolha, inclusive para cargos de gestão. Quando não houver alguém pronto para ocupar essas posições, as empresas podem investir no desenvolvimento de profissionais, criando caminhos para que mais mulheres cresçam dentro das equipes, com cursos, formação e outras oportunidades de capacitação”, complementa Marina.
A análise encontra eco na experiência de Bruna Campos, cantora, empresária e influenciadora na área de direitos autorais na música. Para ela, a dificuldade não está na presença feminina nas atividades do setor, mas no acesso às posições onde decisões estratégicas são tomadas.
“Eu não vejo dificuldade em abrir espaço para mulheres na indústria musical, especialmente na parte operacional e estratégica do mercado, que é onde eu mais atuo. O que ainda falta, muitas vezes, são caminhos mais claros para que mulheres cheguem aos cargos de decisão dentro de editoras, gravadoras, distribuidoras e empresas do setor.”
Bruna destaca que muitas das competências necessárias para navegar na complexidade do mercado musical já estão presentes no trabalho cotidiano das mulheres que atuam na indústria.
“A indústria da música é extremamente complexa e as mulheres têm uma capacidade muito forte de organização, de leitura de contexto, de gestão de processos, fundamentais nesse ambiente. Então, o desafio não está na capacidade das mulheres, mas em como as posições de liderança ainda são distribuídas”, ela completa.
Na visão de Campos, a criação de estruturas mais transparentes dentro das empresas pode ajudar a acelerar esse processo.
“Quando empresas criam estruturas mais transparentes de crescimento profissional, investem em formação técnica e valorizam quem domina os bastidores do mercado, independente de ser homem ou mulher, naturalmente mais de nós passamos a ocupar esses espaços.”
Como promover mais mulheres na música

Se abrir espaço depende de decisões internas nas empresas e equipes, promover mais mulheres na música passa também pela forma como os ambientes criativos são organizados. Sessões de composição, estúdios, equipes de produção e bandas continuam sendo espaços em que as redes profissionais influenciam fortemente quem participa dos projetos.
Para Heloisa Aidar, diretora executiva da BOA Música Brasil, a ideia de que existem poucas compositoras no mercado não corresponde ao que ela observa no cotidiano da indústria.
“Não acredito que existam poucas compositoras. Na verdade, tenho convicção de que as mulheres autoras estão presentes em número e qualidade equivalentes aos dos compositores homens. Para mim, a questão central é de oportunidades e de quanto os processos criativos ainda têm portas fechadas para mulheres cis e trans por parte de autores e produtores.”
Esse tipo de dinâmica ajuda a explicar por que a presença feminina na autoria de músicas populares ainda é relativamente baixa quando comparada à masculina. Em muitos casos, a formação de equipes criativas ainda acontece por meio de parcerias recorrentes entre profissionais que já trabalharam juntos em outros projetos.
Heloisa observa que, mesmo quando há discursos favoráveis à diversidade, a prática do mercado ainda apresenta barreiras.
“A presença feminina nesses espaços muitas vezes tem avançado mais por pressão de artistas ou por iniciativas institucionais dos organizadores do que por um engajamento genuíno de parceiros que se apresentam como anti-machistas. Isso ocorre, infelizmente, em diversos ambientes criativos da música — da composição à produção, passando por bandas e equipes de estúdio.”
Para ela, a permanência desse cenário não se explica pela falta de profissionais qualificadas.
“Não vou me alongar nos motivos mais evidentes. Prefiro apontar algo mais simples: uma certa inércia do próprio meio.”
A diretora executiva da BOA Música Brasil lembra que o mercado musical conta hoje com um número expressivo de compositoras, instrumentistas e produtoras trabalhando em diferentes estilos e circuitos.
“Diante da quantidade de compositoras, instrumentistas e produtoras musicais extraordinariamente qualificadas que existem hoje, é difícil encontrar uma justificativa plausível para que as mulheres não ocupem, no mínimo, entre 40% e 50% dessas funções em uma gravação.”
Como garantir direitos para mulheres na música

A desigualdade de gênero no mercado musical também aparece quando o assunto são direitos autorais e participação econômica dentro da indústria. Embora o número de mulheres registradas como titulares de obras tenha crescido nos últimos anos, a presença feminina entre os principais beneficiados pelo sistema ainda permanece reduzida.
Para Raquel Lemos, advogada e fundadora da Artis Cultural, o debate sobre igualdade na música também passa pela ocupação dos espaços onde decisões econômicas e estratégicas são tomadas.
“Mulher não precisa ser autorizada a liderar na música. Precisa ser reconhecida como quem decide, negocia e lê o mercado inteiro. Quando domina dados, tecnologia, estrutura jurídica e IA, ela deixa de ser apenas voz e passa a ser força de comando. A desigualdade, então, perde o disfarce de destino e aparece como o que é. Uma estrutura velha demais para continuar moldando o futuro.”
Na visão da advogada, ampliar a participação feminina exige olhar para os pontos da cadeia produtiva onde os fluxos financeiros são definidos.
“O problema não é falta de talento feminino, é o que chamo de arquitetura de poder. A mudança real exige transparência na remuneração e nos royalties, acesso das mulheres aos espaços em que o dinheiro é decidido, negócios, publishing, tecnologia e dados. E, claro, redes de mentoria capazes de transformar presença em liderança.”
Esse movimento passa também por ampliar o acesso à informação sobre direitos autorais, contratos e modelos de remuneração no setor. À medida que artistas e profissionais compreendem melhor as engrenagens econômicas da indústria, tornam-se mais capazes de negociar seus direitos e estruturar suas carreiras.
Como entrar no mercado da música

Para muitas mulheres interessadas em trabalhar na indústria musical, o primeiro desafio é entender por onde começar. O setor reúne diferentes áreas profissionais, que vão da criação artística à gestão de carreira, passando por marketing, produção, tecnologia, análise de dados e direitos autorais.
Nesse contexto, iniciativas de formação e visibilidade têm um papel importante na criação de novas referências dentro da indústria. Para Marina Mattoso, a presença feminina em ambientes de ensino e capacitação ajuda a ampliar os horizontes para quem está começando.
“No curso do Musical Academy, que coordeno, procuro aplicar essa lógica. Tento ocupar a maior parte das cadeiras de professores com mulheres. Na próxima turma, teremos dois homens e seis mulheres. Essa escolha ajuda a dar visibilidade a essas profissionais, fortalece seus currículos e amplia suas oportunidades. Além disso, permite que outras mulheres vejam essas trajetórias como algo possível para quem está começando.”
À medida que mais mulheres ocupam posições de liderança, ensino e criação dentro da indústria, novas trajetórias passam a se tornar visíveis para quem deseja construir carreira no setor. Para muitas profissionais, esse movimento de referências e redes de apoio pode ser decisivo para transformar o crescimento da presença feminina em uma participação mais equilibrada na música.
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