É preciso ter estômago – ou uma sede inabalável de justiça – para encarar o que o KNEECAP cozinhou nesses últimos dois anos. Se o grupo de Belfast já era uma pedra no sapato do conservadorismo britânico, em FENIAN, disco lançado nesta sexta-feira (01), eles decidiram trocar a pedra por um coquetel molotov. O novo trabalho é um verdadeiro documento de sobrevivência de quem viu o Estado tentar, sem sucesso, puxar o tapete de sua existência.
O hiato desde Fine Art (2024) foi tudo, menos silencioso. Entre tribunais, bandeiras proibidas e tentativas de censura que chegaram ao gabinete do Primeiro-Ministro, Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí entenderam que a melhor resposta ao silenciamento é o barulho ensurdecedor. Produzido pelo alquimista sonoro Dan Carey, o álbum é o triunfo da agressividade poética sobre a burocracia política.
O TMDQA! recebeu o álbum antecipado e mergulhou nesse caos organizado, te trazendo em primeira mão as razões quais este é o disco mais urgente de 2026. Vamos nessa?
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O despertar de uma mitologia moderna
A abertura com “Éire go Deo” funciona como um ritual de passagem. Esqueça a urgência das batidas por um momento: aqui, o KNEECAP nos recebe com uma atmosfera quase espiritual, onde a língua irlandesa flutua sobre sintetizadores nebulosos. É um lembrete de que, antes de serem rappers, eles são guardiões de uma cultura que se recusou a morrer (mas óbvio, a paz dura pouco).
Quando “Smugglers & Scholars” invade os fones, a sensação é de estar em uma perseguição em alta velocidade pelas ruelas de West Belfast. A produção de Carey transforma o hip-hop em algo industrial, sujo e metálico, onde as rimas bilingues do trio cortam o ar como navalhas. Eles não estão apenas rimando; estão reescrevendo a história dos “Fenians”, tirando o termo do lamaçal do preconceito e devolvendo-o ao lugar de guerreiro.
O disco atinge seu ápice de sarcasmo em “Carnival”. Ao transformar o próprio julgamento de Mo Chara em um espetáculo de absurdo, o grupo expõe a hipocrisia de um governo que se preocupa mais com letras de rap do que com crises humanitárias globais. A batida lopesca e o clima de “circo de horrores” mostram que o KNEECAP aprendeu a rir na cara do perigo, transformando a perseguição em combustível criativo.
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Solidariedade e fúria em bpm alto
Se o lado político é o esqueleto de FENIAN, a experimentação sonora é o sistema nervoso. Em “Palestine”, a colaboração com o rapper Fawzi não soa como um gesto vazio, mas como uma conexão visceral de traumas compartilhados. É música de resistência global que faz o chão tremer, unindo o árabe e o irlandês em um grito de liberdade que ignora fronteiras.
O disco também sabe ser uma celebração do caos das pistas. “Liars Tale” e a faixa-título são hinos de “rave-punk” puro, feitos para suar e descarregar a adrenalina em festivais. É aqui que o DJ Próvaí brilha, fundindo a energia das raves ilegais dos anos 90 com o veneno das letras que não poupam ninguém – especialmente a figura de Keir Starmer, que vira alvo de uma das críticas mais ferozes já registradas no rap britânico recente.
Mas há espaço para a vulnerabilidade. Em momentos como “Cocaine Hill” e o encerramento com “Irish Goodbye”, o grupo tira a balaclava. A última faixa, com a participação magnética de Kae Tempest, é um soco no estômago sobre luto e ausência.
É o equilíbrio perfeito: um disco que começa com o orgulho de uma nação e termina com a dor de um adeus pessoal.
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O veredito: mais do que apenas manchetes
FENIAN é a prova definitiva de que o KNEECAP não é um fenômeno passageiro ou um “ato de choque” para tabloides: eles são artistas no controle total de sua narrativa. Ao misturar a agressividade do punk com a sofisticação da música eletrônica moderna, o trio entregou um álbum que é tanto um manifesto político quanto uma obra de arte sonora impecável.
Eles sobreviveram às tentativas de cancelamento, aos tribunais e ao establishment. Agora, com este álbum debaixo do braço, o mundo é obrigado a ouvir o que Belfast tem a dizer. É pesado, é necessário e é, acima de tudo, libertador.
Nota: ★★★★½ (4.5/5)
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