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Entre o sagrado e o profano e a tradução da tradição: sobre Anitta, Bad Bunny, Dominguinho e a renovação musical

Ouvindo EQUILIBRIVM II, novo álbum da Anitta, ficou muito evidente uma relação que há tempos observo e discuto em mesas de bar: os artistas musicais que estão inovando e botando no mundo projetos extremamente disruptivos e de sucesso utilizam uma fórmula que, para mim, é a base da manutenção da cultura popular. Em Equilibrium, a […]

Entre o sagrado e o profano e a tradução da tradição: sobre Anitta, Bad Bunny, Dominguinho e a renovação musical


Ouvindo EQUILIBRIVM II, novo álbum da Anitta, ficou muito evidente uma relação que há tempos observo e discuto em mesas de bar: os artistas musicais que estão inovando e botando no mundo projetos extremamente disruptivos e de sucesso utilizam uma fórmula que, para mim, é a base da manutenção da cultura popular.

Em Equilibrium, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a dicotomia e complementaridade que existe entre o “sagrado e o profano”. Para muitos, pode parecer quase uma heresia misturar algo que é divino e mundano, mas um não existe sem o outro (assim como a luz e a sombra, a vida e a morte, o céu e a terra) e essa é basicamente a matriz da cultura brasileira.

Um país extremamente religioso que tem festividades gigantescas como o Círio de Nazaré no Pará, a Festa de Iemanjá na Bahia e outras tantas romarias/festejos religiosos é também o país do baile funk, do Carnaval, dos biquínis minúsculos. Mas por que quando a Anitta mistura isso, gera tanto burburinho e estranhamento?

Já não é de hoje que a artista brasileira com maior destaque na atualidade resolveu colocar a sua religiosidade no centro da sua arte. O “problema” é que a Anitta é do candomblé, uma religião que até hoje é demonizada por muitos por falta de conhecimento. Mas ainda assim, ela decide escancarar seu ponto de vista, mostrar a beleza onde muitos veem feiura, evidenciar o sagrado onde pessoas só enxergam o profano. Ela mostra de uma forma artística e extremamente conceitual, o que talvez muitos de seus fãs e a sociedade em geral desconhecem e com isso ela abre para a reflexão e o debate (ainda que seja para “quebrar o pau” nas redes sociais).

Nas religiões e na cultura afro-brasileira, no geral, o sagrado e o profano sempre andam juntos. Tá tudo bem você rebolar a bunda ou chamegar em faixas como “Divino Sexual” ou “Eu não sou Santa” em que ela escancara a dualidade entre os dois extremos, mas logo depois estar exaltando “Deus Mãe” (King, você é braba!) e batendo cabeça em “Ogum Me Rodeia”… Na verdade, dá pra dançar ouvindo o álbum todo e a dança também é sagrada pra quem é de asè! Os orixás dançam quando vem pra Terra e os mitos, nos quais aprendemos sobre eles, mostram sempre suas qualidades e defeitos, assim como nós humanos, e isso não é algo ruim… É simplesmente o natural!

Muitos não param para refletir, mas esses opostos que se complementam estão também nas maiores festas populares do nosso país, que também são períodos extremamente importantes para o mercado musical. Primeiramente, a própria “festa da carne” vulgo Carnaval que é o momento dos trios, grandes shows, blocos e da galera louca na rua é o que antecede a Quaresma, período de reflexão, resguardo e oração.

Mas quem tem coragem de dizer que a nossa festa mais profana para uns também não é igualmente sagrada para outros? Outro grande exemplo é período junino, afinal as Festas de São João do Nordeste – que se tornaram também grandes festivais musicais – assim como os festejos de Bumba Meu Boi do Maranhão e Boi Bumbá em Parintins acontecem nesse período porque é o momento de celebrar três santos católicos: São João, São Pedro e Santo Antônio.

Analisando por outro lado, vemos a “tradução da tradição” muito presente em EQUILIBRIVM II. Eu ouvi esse conceito acadêmico pela primeira vez graças ao doutor, pesquisador e meu professor de danças folclóricas Gustavo Côrtes, ainda adolescente. A “tradução da tradição”, de forma simples, “significa o ato de passar costumes, ideias ou textos antigos de um grupo, língua ou cultura para outra, adaptando os símbolos para que façam sentido no novo tempo ou lugar”.

Mas o que isso tem haver com a Anitta?

Ai que tá… musicalmente, isso não é só sobre a Anitta, mas sobre alguns dos projetos de maior destaque que vimos nos últimos tempos, e também sobre o movimento de versões, uso de samples e citações em que o Rap foi pioneiro lá atrás, mas que vem dominando toda a nossa indústria.

Antes de falar da atualidade, vou ali no início da década de 90 e trago pra mesa uma das bandas mais geniais que ainda circulam pelos palcos dos festivais de música: Nação Zumbi! Quando Chico Science, Nação e Mundo Livre S/A criam o movimento Manguebeat misturando ritmos regionais como o coco e maracatu ao rock, hip hop e música eletrônica, eles simplesmente traduzem uma “tradição” que vem da cultura regional para uma geração que talvez nem tivesse conhecimento desses ritmos, além de alcançar novos públicos.

O que surgiu dali, de forma orgânica e em situações adversas na periferia do Recife, foi simplesmente a fórmula de sucesso que inovou a cena musical daquele momento e inspirou muitos. Mas ao fazer essa escolha, de misturar o regional com ritmos atuais para aquela geração, eles automaticamente exaltaram, resgataram suas raízes e ajudaram a não deixar morrer aquilo que é nosso (do povo brasileiro)!

Em “Debi Tirar Más Fotos”, Bad Bunny bebe de toda a sua latinidade para compor seu maior trabalho até então. A plena (ritmo folclórico de Porto Rico), salsa e rumba se misturam com o reggaeton e eletrônico, além de samples de bandas icônicas da música porto-riquenha como El Gran Combo. O resultado? Pais e filhos indo em shows e dançando músicas feitas por um artista que até então só atingia massivamente a Geração Z, uma declaração de amor (e política) à cultura de seu povo. 

Querendo ou não, foi o que João Gomes, Mestrinho e Jota.pê fizeram com o forró, o xote e o baião em “Dominguinho”. Além de músicas inéditas em ritmos que a nova geração poderia achar ultrapassado, eles resgataram os verdadeiros precursores dos gêneros como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, além de fazerem versões de sucessos do Charlie Brown, Sandy & Junior e até o funk do MC Marcinho. E ao criarem esse projeto, possivelmente despretensioso em termos comerciais no início, eles ganharam Grammys, colocaram o forró no line up dos festivais mais descolados e lotaram estádios. 

Poderia citar outros muitos exemplos incríveis, de outras regiões do Brasil e do mundo, mais antigos até… Mas o fato é que, quando esses artistas fazem isso, eles não só trazem um frescor para a cena musical, eles também apresentam para a nova geração algo que poderia se perder com o tempo, mas é justamente a “tradução da tradição” que permite que esses ritmos, músicas e manifestações não fiquem apenas no passado e sejam a base para o futuro! O que me traz de volta à Anitta…

Confesso que, ainda que possa ser uma estratégia meramente comercial (galera ama uma teoria, mas só a artista e seu time sabem a resposta), é excitante ouvir e VER um álbum no qual o pop aparece repaginado, com as raízes brasileiras e ritmos negros/periféricos tão evidenciados.

Tem o funk atabacado com Los Brasileiros, a malandragem da Mart’nália, o dancehall abrasileirado com KBrum, o eletrônico indígena com Brôs MCs e Katu Mirim, a sanfona afiada de Mestrinho, o samba (de gafieira)…  Mas também tem Alceu Valença de um forma que você nunca ouviu, a rainha Maria Bethânia rezando pra Ogum, o Grupo Ofá em uma exaltação de Oxum que me levou às lágrimas.

Poderia ainda citar as interpolações (como de “Tai” da Carmen Miranda), a própria versão em espanhol de “Azul” do Djavan e todas as letras que, assim como é no candomblé e com os povos originários, servem de tradição oral para apresentar ao mundo o fantástico universo místico de Anitta.

Conseguiria fazer um outro texto inteirinho sobre “sagrado e profano” e “tradução da tradição” a partir do audiovisual, falando sobre todos os símbolos, elementos, pessoas e ritos que ela trouxe para o projeto, mas como o foco aqui é música rs…  

Uma amiga me disse que o release do álbum fala que o “futuro é ancestral” e esse é um conceito que eu conheço bem, o famoso SANFOKA. Neste ponto, eu e Anitta concordamos plenamente: é preciso olhar para o passado para construir o futuro. Porque assim como diria Lavoisier, na natureza (que também é a base do candomblé), na cultural popular e na (boa) música, nada se perde, nada se cria… Tudo se TRANSFORMA!

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Ana Paula Paulino | Gerente de A&R da Warner Music Brasil e Sócia da Ubuntu Produções

Mineira e dançarina desde os 3 anos, Ana Paula Paulino descobriu sua verdadeira vocação para o gerenciamento artístico.

Bacharel em RP pela UFMG, ela é uma das sócias da Ubuntu Produções, juntamente com a irmã Isaura Paulino. A empresa atua nas áreas de produção de eventos e gestão cultural. Em 2023, a executiva também assumiu o cargo de Gerente de A&R na Warner Music Brasil e tendo trabalhado com artistas como MC IG, Pedro Sampaio e Pocah.

Ana também é curadora, diretora criativa, ativista e palestrante (TEDx speaker).





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