Depois de encerrar seu ciclo com a gravadora Sony Music, Priscilla (ex-Alcantara) estreou na última semana o disco “ECO”, primeiro 100% independente de sua carreira.
Em entrevista ao Papelpop, a cantora falou sobre a liberdade que encontrou longe da estrutura de uma major e a pressão por números dentro da indústria.
A ex-Bom Dia & Cia também abriu o jogo sobre a relação com a fé e reagiu às interpretações que ainda relacionam suas músicas a uma suposta vontade de “voltar para a igreja”: “Como se minha fé tivesse ido para algum lugar”, ironizou.
O novo momento, segundo a própria, também aparece diretamente nas músicas. O projeto transita entre referências do pop contemporâneo, elementos eletrônicos e momentos exuberantes e chiques com R&B.
“Eu não quis me limitar a um som específico. O disco é muito sobre isso: sobre ecos de quem eu fui, de quem eu sou e de tudo que eu ainda posso ser”
Leia íntegra do bate-papo:
Papelpop: Esse é seu primeiro álbum 100% independente. O que mudou para você na hora de fazer esse trabalho? Não existe mais aquele sentimento de “preciso cumprir o que estão me pedindo”?
Priscilla: É, e também aquela coisa: “Preciso fazer algo que renda, que seja rentável”. Existe sempre uma pressão, porque é como funciona o jogo da indústria. Não é nenhuma crítica, é só uma explicação de como funciona. É um produto, sua música é um produto, e você tem que ser rentável. Mas dói o coração do artista pautar a sua criação, a sua criatividade, a partir desse princípio.
E, nesse lugar independente, apesar de todos os desafios que tem, existe essa liberdade. A liberdade de você fazer e ser criativo sem outras obrigações a não ser a sua excelência, ser fiel à sua verdade e ao que é excelente.
PP: Você deixou a Sony antes de começar esse novo capítulo. Você sentiu que tinha cumprido seu ciclo por lá?
P: Veio exatamente desse lugar. Foram anos incríveis lá. Fui muito bem cuidada, tratada, fiz coisas maravilhosas. Construí uma etapa da carreira lindíssima, mas precisava ser encerrada. Acho que todo mundo compreendeu.
Não fazia mais sentido para mim essa estrutura. Não estava conseguindo fluir naquilo e aí eu ia me barrar. Também não faria sentido para eles ter uma artista que não consegue fluir. Não estava mais encaixada naquele sistema. Então falei: “Cara, esse é o maior sinal de que eu preciso ir para outro formato”.
PP: Então foi você quem chegou e falou: “Está na hora de encerrar”?
P: Foi. Não quis insistir em permanecer em uma major, até porque acho que já estava sentindo a vibe desse álbum. Falei: “Não vai rolar soltar um álbum que carrega essa presença, essa verdade, num sistema, num mecanismo em que eu mesma não estou funcionando”. Foi uma decisão consciente. Quando a gente não respeita o encerramento do ciclo, vira um fardo.
(Foto: Divulgação/ Mateus Aguiar)
PP: Existe menos expectativa sobre como o álbum vai performar?
P: Estou ansiosa, mas de um jeito muito diferente. É só com a minha querência das pessoas ouvirem as músicas. Os fãs até estranham, acham o papo clichê, tipo: “Até parece que não liga para o chart”. Mas, cara, quando você está há 20 anos trabalhando com música dentro de uma indústria que, cada vez que te pede número, faz você diluir mais o seu eu artista…
PP: Então partir para uma carreira independente sempre esteve nos seus planos?
P: Sempre quis, sempre soube que chegaria o momento de me tornar uma artista independente. Respeito muito o tempo das coisas. Pensava: “Tenho o que construir aqui”. Quando senti que construí, vou para outro lugar e começo uma construção nesse lugar, e assim por diante. Foi completamente tranquilo.
PP: E o que essa independência mudou na prática?
P: Não preciso passar nada por ninguém. E eu sempre tive um problema com isso porque sou geminiana, sou prática e tenho mil ideias por segundo. Agora só tem que passar por mim. Passou da minha cabeça para a minha boca, já está feito. É uma bênção, uma maravilha.
(Foto: Divulgação/ Mateus Aguiar)
PP: Musicalmente, “ECO” traz o R&B muito mais presente. Essa sonoridade era um caminho que você já queria seguir?
P: Foi algo intencional da minha parte mesmo. Sempre quis ter um álbum muito pop em tudo: som, estética, performance. Não tinha isso na minha discografia, então falei: “Vou fazer o ‘PRISCILLA’” [disco anterior, lançado em 2024]. Então, quando as pessoas ouvirem esse álbum, sei que vão falar: “Nossa, como é diferente do último”. Eu quis esse contraste para existir clareza do que elas querem da minha voz, do que faz sentido realmente eu cantar.
PP: E como foi construir esse trabalho ao lado do Laudz, que também é seu marido?
P: Cantoras, casem com o produtor! [risos] Mas com um produtor bom. Tenho a sorte do Laudz ser o Laudz, uma referência na produção brasileira. Ele conseguiu encontrar o caminho em que minha voz pudesse aparecer e ser protagonista. E fizemos tudo dentro de casa, então foi um presente poder fazer o que a gente mais ama com quem a gente mais ama.
PP: “Respirar” fala justamente sobre essa sensação de se sentir mais leve. Você acha que ela representa essa mudança e a saída da gravadora?
P: Acredito que sim. É muito significativo o álbum terminar com ela, porque essa música é realmente um convite para você: cara, se desliga, para, só respira. Tem demanda o tempo todo, pressão, peso no ombro o tempo inteiro. Às vezes a gente só precisa deitar no chão e respirar. Às vezes é só isso.
“Essa minha fase independente seja esse meu momento de deitar no chão. Esquecer, apenas ser, existir e respirar. Então está sendo mesmo um respiro para mim esse álbum.”
(Foto: Divulgação/ Mateus Aguiar)
PP: Queria entrar em “Destino”. Embora a música possa ser entendida como uma busca por um amor, algumas pessoas podem associar essas palavras à sua fé. Você imaginou que isso aconteceria?
P: Quando terminei de escrever, falei: “Aposto que os fofoqueiros vão botar isso tudo sobre isso. ‘Ah, porque quer voltar para a igreja’ e não sei o quê”. Eu falei: “Aposto!”.
Eu aposto todo o dinheiro que ganhar com esse álbum, tá? Você pode postar aí que eu falei isso. Eu aposto que as pessoas vão falar: “Ai, ela está escrevendo que quer voltar pra Jesus”. Eu amo esse discurso. Tipo assim, como se minha fé tivesse ido para algum lugar.
PP: Por que você acha que essa associação continua acontecendo?
P: É uma associação que acho que as pessoas que gostam dessa narrativa e querem continuar falando dessa narrativa ficam atentas a tudo. Tipo, a qualquer momento eu vou construir mais uma coisa para a narrativa.
Então elas podem pegar escolhas de palavras e construir uma narrativa independentemente do contexto que eu escrevi. E está tudo bem, porque a arte, depois que eu lanço, não é mais minha, ela é do outro. Mas eu só queria deixar claro que tem esse meu contexto, tá?
PP: Ao mesmo tempo, parece que você está em um momento em que também quer responder e deixar clara a sua versão das coisas.
P: Estou nessa fase! Vocês não vão falar do lado de vocês sem eu falar o meu, tá? Estou livre também nesse lugar. “Ai, ela quis dizer isso”. Não, ela não quis dizer isso. Seu ouvidinho ouviu isso, mas não foi isso. Então vou estar sempre atualizando vocês dos babados do meu lado.
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