A Primary Wave comprou de Aubrey “Po” Powell a parte do acervo visual da Hipgnosis que estava ligada ao cofundador do estúdio britânico, responsável por capas clássicas de nomes como Pink Floyd, Queen, Led Zeppelin, Black Sabbath, Def Leppard, AC/DC, Genesis, Yes, Bad Company, Styx e Foreigner.
A compra marca um movimento curioso no mercado de catálogos: em vez de mirar apenas composições, gravações ou direitos de imagem de artistas, a Primary Wave passa a tratar a arte de capa como ativo cultural, comercial e expositivo. Isso coloca o design de discos dentro da mesma lógica de preservação, curadoria e exploração global que já orienta boa parte das negociações de catálogo no setor musical.
Os termos financeiros não foram revelados. Além das artes, a negociação inclui objetos usados na criação de trabalhos da Hipgnosis, como os modelos de biplanos ligados ao vídeo de Pink Floyd para “Point Me to the Sky” e uma das esculturas originais de “The Object”, peça que aparece na capa do álbum “Presence”, do Led Zeppelin.
O que a Primary Wave comprou
A Hipgnosis foi fundada em 1967 por Aubrey “Po” Powell e Storm Thorgerson, após um pedido do Pink Floyd para a capa do segundo álbum da banda, “A Saucerful of Secrets”. A partir dali, o estúdio se tornou referência ao trocar retratos tradicionais de bandas por imagens conceituais, muitas vezes surreais, que ajudavam a construir o imaginário dos discos.
Esse ponto é central para entender o negócio. A Primary Wave não está comprando apenas “imagens bonitas” associadas a álbuns famosos. O que entra no acordo é uma parte da memória visual da música gravada, criada em uma época em que a capa de um LP fazia ainda mais parte da experiência de escuta. Antes do streaming transformar a capa em miniatura de aplicativo, ela era embalagem, cartaz, identidade, objeto de coleção e porta de entrada para o universo de um artista. Não por acaso, a arte de capa é um dos principais atrativos do atual sucesso mercadológico do vinil.
A empresa também afirmou que seguirá trabalhando com Po Powell para criar exposições globais do catálogo da Hipgnosis. A ideia é apresentar peças já conhecidas e também materiais que ainda não foram exibidos publicamente. Para a Primary Wave, isso abre uma frente que combina música, artes visuais, museus, licenciamento e experiências presenciais.
Por que isso importa para o mercado
A compra mostra como o conceito de catálogo musical ficou mais elástico. Durante anos, os acordos mais comentados envolveram repertórios de canções, masters, publishing e direitos de nome, imagem e semelhança. Agora, o caso Hipgnosis aponta para outro tipo de ativo: a estética que ajudou determinados álbuns a virarem marcos culturais.
No mercado atual, essa camada visual pode render exposições, livros, documentários, produtos licenciados, campanhas de aniversário e experiências imersivas. Para artistas clássicos, isso ajuda a manter a obra circulando entre novas gerações. E para empresas como a Primary Wave, cria novas formas de ativar catálogos sem depender apenas do consumo de áudio nas plataformas.
A fala de Lexi Todd, vice-diretora de operações da Primary Wave, resume essa leitura do negócio:
“Estamos mais do que animados em fazer parceria com Po em um dos catálogos visuais mais influentes da história da música. Esta arte fez mais do que apenas acompanhar discos; ela moldou como gerações de públicos experimentaram a própria música. A Primary Wave espera honrar essa profunda conexão entre som e imagem garantindo que essas obras icônicas continuem inspirando fãs de música ao redor do mundo.”
Po Powell também deixa claro que a venda foi pensada como uma forma de manter o acervo reunido, e não como uma fragmentação das peças:
“Quando a Primary Wave mostrou interesse no legado das imagens da Hipgnosis, foi música para os meus ouvidos. Por tempo demais, fui abordado para vender pedaços e partes da minha coleção, o que não me interessava, e eu ansiava por uma empresa que entendesse a importância do trabalho em sua totalidade e o reconhecimento como uma forma de arte séria”, comemora.
A confusão com outra Hipgnosis
O anúncio também exige uma distinção importante. Esta Hipgnosis é o estúdio de design fundado por Powell e Thorgerson nos anos 1960. Não se trata da Hipgnosis ligada a Merck Mercuriadis, criada décadas depois para atuar em direitos musicais e compra de catálogos de canções.
Segundo o Music Business Worldwide, antes de morrer em 2013, Thorgerson concedeu a Mercuriadis o direito de usar o nome Hipgnosis em sua empresa. Esse negócio de direitos musicais depois se tornou Hipgnosis Songs Fund, foi rebatizado pela Blackstone como Recognition Music Group, e teve seu catálogo de mais de 45 mil canções alvo de acordo de aquisição pela Sony Music Publishing em maio de 2026.
A diferença importa porque os dois casos lidam com “catálogo”, mas em camadas distintas. No universo de Mercuriadis, o foco era a exploração de músicas e direitos autorais. No acordo da Primary Wave com Po Powell, o centro é a arte visual associada à cultura dos álbuns.
O caso mostra que a disputa por ativos musicais não está restrita ao que se ouve. Também passa pelo que se vê, pelo que se coleciona e pelo que pode ser recontado em museus, campanhas e experiências para fãs.
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