PUBLICIDADE

Carol de Amar fala sobre ciclos, mercado e novos caminhos após deixar a gestão da Lagum

No início dos anos 2010, Belo Horizonte atravessava um momento de intensa movimentação cultural fora dos grandes centros institucionais. Festas independentes, eventos de rua, ocupações e cenas musicais locais se espalhavam por diferentes regiões da cidade, impulsionadas por redes informais, colaboração e uma lógica de fazer acontecer com o que se tinha à mão. É […]

Carol de Amar no Festival Coma


No início dos anos 2010, Belo Horizonte atravessava um momento de intensa movimentação cultural fora dos grandes centros institucionais. Festas independentes, eventos de rua, ocupações e cenas musicais locais se espalhavam por diferentes regiões da cidade, impulsionadas por redes informais, colaboração e uma lógica de fazer acontecer com o que se tinha à mão. É nesse contexto que Carol de Amar começa a se formar profissionalmente, antes mesmo de enxergar sua atuação como carreira estruturada no mercado da música.

Criada na Zona Leste da capital mineira, Carol se aproximou da música a partir da vivência direta com eventos e articulações ligadas ao funk, ao samba, ao pagode e à música preta, expressões predominantes no território onde cresceu. O contato com a cultura não veio por meio de instituições ou cursos, mas da prática cotidiana e da presença constante nos bastidores.

“Minha relação com a música nasce dentro da cena cultural independente de Belo Horizonte, na Zona Leste, participando das ‘barraquinhas’ que tocavam funk e Miami no meu bairro. Comecei muito antes de qualquer formação profissional, envolvida com produção de eventos, festas e articulação de artistas ligados ao funk, ao samba, ao pagode e à música preta de uma forma geral, que eram predominantes na região onde eu cresci e no contexto em que eu fui criada.”

O que inicialmente eram trabalhos pontuais acabou se transformando em um processo profundo de aprendizado. A convivência com artistas, produtores e públicos ensinou a Carol fundamentos que não aparecem em manuais, mas que se tornam decisivos ao longo do tempo.

“No início, era pra ser só uns freelas servindo chopp para comprar ingressos de festivais – mas esse ambiente me ensinou, na prática, sobre escuta, entrega e construção coletiva. Essas experiências foram decisivas na minha formação profissional, porque me ensinaram a entender o público, respeitar a cena, trabalhar em rede e construir projetos com consistência.”

Da execução à estratégia cultural

Carol de Amar nos bastidores (Crédito: Divulgação)

Com o passar dos anos, Carol de Amar percebeu que sua atuação começava a se deslocar da execução para o pensamento estratégico. Dentro dos próprios projetos, passou a se envolver de forma mais intensa com escolhas artísticas, curadoria e planejamento, entendendo que a sustentabilidade cultural exige decisões que vão além do dia do evento.

“Fui entendendo isso melhor dentro dos próprios eventos. Enquanto minha sócia estava mais focada na condução 360 da execução e na viabilidade, eu estava cada vez mais mergulhada nas escolhas artísticas, na curadoria, no posicionamento e no futuro daqueles projetos. Passei a me envolver naturalmente com planejamento, construção de narrativas e articulação de oportunidades artísticas que conectam essas pontas.”

Esse movimento ajudou a definir seu campo de atuação. Carol passou a se reconhecer como alguém interessada em processos de longo prazo, na construção de caminhos e não apenas na entrega imediata.

“Foi quando entendi que minha atuação estava mais ligada à estratégia e ao desenvolvimento de longo prazo do que à entrega de produção executiva em si.”

Festival Sarará como plataforma e virada de chave

Carol de Amar nos bastidores do festival Sarará
Carol de Amar nos bastidores do festival Sarará (Crédito: Divulgação)

Não é à toa que a criação do Festival Sarará representa um ponto decisivo na trajetória de Carol de Amar. O projeto nasce de uma falta, uma lacuna devido às práticas de exclusão observadas no circuito de eventos e da ausência de espaços que comportassem outras estéticas, corpos e linguagens.

“O Sarará nasce de um incômodo muito real. Eu e Bell, minha sócia, sentíamos falta de espaços que acolhessem mais corpos, estéticas, estilos e pessoas que simplesmente não cabiam no padrão imposto por muitos eventos da época. Havia, inclusive, práticas explícitas de exclusão que nos atravessavam profundamente.”

Desde o início, a proposta foi pensar o Sarará como algo contínuo, e não restrito a uma data no calendário.

“Desde o início, foi pensado como mais do que um evento: uma plataforma de diversidade, inclusão, música e formação. Essa criação marcou uma virada porque nos colocou no lugar de quem pensa cultura de forma estrutural, contínua e conectada ao mercado, sem abrir mão do compromisso artístico e social.”

Com o tempo, o projeto se desdobrou em iniciativas como Trio Sarará, Sararazinho e Circuito Sarará, consolidando um modelo que dialoga com transformações mais amplas do mercado cultural.

Gestão artística e leitura de mercado

Carol de Amar com a Lagum no Lollapalooza Brasil
Carol de Amar com a Lagum no Lollapalooza Brasil (Crédito: Divulgação)

Quando Carol de Amar assume a gestão e a direção geral da Lagum, ela já acumulava experiência em projetos autorais e festivais.

“A entrada na gestão da Lagum acontece num momento em que eu já vinha acumulando experiência com projetos autorais e festivais, mas também vivia o desgaste natural de quem empreende cultura de forma independente no Brasil. Assumir esse desafio foi uma escolha consciente por um trabalho de desenvolvimento de carreira a longo prazo.”

A experiência trouxe novos aprendizados e mudou sua leitura sobre o funcionamento do mercado nacional.

“Essa experiência ampliou minha visão de mercado, especialmente no diálogo com grandes estruturas, marcas e circuitos nacionais, e me ensinou a entender melhor o jogo da música, sem abrir mão da minha essência, dos valores que sempre guiaram minha atuação e dos meus limites.”

Diversificação e estruturas de sustentação

Carol de Amar acompanha ensaio de Djonga no Mineirinho
Carol de Amar acompanha ensaio de Djonga no Mineirinho (Crédito: Divulgação)

Paralelamente à gestão artística, Carol de Amar expandiu sua atuação para outras frentes, como os selos CRIA.co e Macacolab, além de integrar o Instituto AMA. A diversificação responde a uma compreensão mais ampla sobre como a cultura se sustenta.

“Essa expansão vem de uma inquietação constante e do entendimento de que a cultura precisa de múltiplas frentes para existir de forma saudável. CRIA.co e Macacolab surgem como espaços de experimentação, desenvolvimento e inovação, enquanto o Instituto AMA amplia a atuação para o campo da inclusão e do impacto social.”

Apesar das áreas distintas, os projetos compartilham uma lógica comum.

“Todas essas frentes se conectam pelo mesmo princípio: criar estruturas que sustentem a criação artística, a cultura e o cuidado com as pessoas e com o ambiente do qual fazemos parte.”

Encerrar ciclos e olhar para frente

Carol de Amar no Festival CoMA (Crédito: Divulgação/Festival CoMA)
Carol de Amar no Festival CoMA (Crédito: Divulgação/Festival CoMA)

A saída de Carol de Amar da gestão e da direção geral da Lagum foi anunciada publicamente no final de 2025, por meio de um texto de despedida compartilhado em suas redes. Na mensagem, ela fala sobre encerramento de ciclos, gratidão pelo percurso construído e a abertura de novos caminhos profissionais.

A decisão, no entanto, não foi repentina. Segundo Carol, o processo começou a ser amadurecido cerca de um ano antes, a partir de conversas abertas com a banda sobre o momento de cada um e os próximos passos do projeto.

“Essa percepção começou a se formar em 2024. Conversamos abertamente sobre isso e expressei minha intenção de sair, mas naquele momento a banda ainda não se sentia pronta para essa transição. Seguimos juntos por mais um ciclo, até que eles encontraram um bom parceiro para dar continuidade ao trabalho.”

O encerramento acontece com a sensação de percurso cumprido.

“Depois de quase uma década, ficou claro que aquele percurso havia sido cumprido com consistência e que, para seguir crescendo, era importante que todos pudessem abrir espaço para novos caminhos.”

A partir de 2026, Carol de Amar direciona sua atuação para curadorias artísticas, projetos especiais e novos negócios culturais, com foco em permanência e impacto.

“Levo a certeza de que consistência é mais importante do que velocidade. Aprendi a pensar a cultura como um ecossistema, onde artistas, projetos, instituições e mercado precisam estar em diálogo para que as necessidades reais da sociedade sejam atendidas.”

Pensando no futuro próximo, Carol projeta uma atuação conectada à criação de valor real.

“Nos próximos anos, quero concentrar minha energia em projetos que tenham permanência: iniciativas, curadorias e projetos que criem valor real para artistas, público e parceiros. Me interessa fortalecer um mercado cultural mais diverso e bem estruturado onde a cultura seja também caminho de educação, convivência e futuro.”

Leia mais:





Fonte

Leia mais