Mais do que nunca, Carly Rae Jepsen vê com bons olhos as dualidades da vida: a casa da mãe e a casa do pai após o divórcio; a carreira e a maternidade com o nascimento de sua primeira filha; Nova York e Los Angeles; o estúdio e as pistas de dança; o folk-pop e a dance music; o dia e a noite.
No álbum duplo “Day and Night”, lançado nesta sexta-feira (18), a cantora e compositora canadense transita justamente entre esses mundos distintos. Permite-se misturar e explorar elementos opostos, mas por vezes complementares, de sua história ao longo de 24 faixas inéditas.
“Aos 40 anos, eu olho para trás e abraço a dualidade em que vivi, sem a necessidade de escolher só uma coisa ou outra. Esse projeto é um aceno e uma resposta a tudo isso. Eu sou tudo isso”, conta ao Papelpop.
Na entrevista, a artista explica a proposta, as sonoridades, a influência da família e mais detalhes do disco. Além disso, comenta a parceria com o diretor brasileiro Caio Vieira e a vontade de voltar ao Brasil após ter feito “uma das melhores viagens” de sua vida com o Primavera Sound São Paulo 2023.
Papelpop – Me conta sobre o conceito desse álbum duplo. Por que explorar a dualidade entre “Day and Night” [“dia e noite”]?
Carly Rae Jepsen – Há duas respostas para essa pergunta – uma é simples, a outra é mais complicada (risos). Eu vou começar com a mais fácil: me senti inclinada para duas direções diferentes em termos de sonoridade e não consegui escolher uma só. Ambas eram muito empolgantes para mim. Antes de qualquer trabalho, eu me permito entrar no estúdio, explorar possibilidades e ver no que dá. Dessa vez, fiz a mesma coisa, mas, ao invés de definir apenas uma, me deparei com duas vertentes distintas. Uma era mais folk-pop e psicodélica, enquanto a outra era mais synth bass e sombria. Eu gostava das duas igualmente e não sabia como juntá-las, pois queria fazer algo coeso. Foi meu guitarrista que, certo dia, em Nova York, me ajudou ao associar essa dualidade a uma festa em casa, dividida em primeiro e segundo andar. Eu amei isso! Por um tempo, até chamei o álbum de “Upstairs, Downstars” [“andar de cima, andar de baixo”]. Depois, dirigindo por Los Angeles, pensei: “‘Day and Night’, sim, vai ser isso”.
Talvez essa tenha sido uma resposta complicada (risos), mas a mais complicada ainda é: eu sempre fui muito observadora. Cresci em duas casas diferentes, a da minha mãe e a do meu pai. Revezava entre elas a cada dois dias. Por mais difícil que isso pareça ser, a graça é que eu pude ver dois jeitos e abordagens de vida. Tive uma forma folk e uma forma pop mainstream de viver. Agora, aos 40 anos, olho para trás e abraço essa dualidade em que vivi, sem a necessidade de escolher só uma coisa ou outra. Esse álbum é um aceno e uma resposta a tudo isso. Eu sou tudo isso!
PP – O disco realmente tem um contraste, com uma parte sendo mais dançante. Me fez lembrar de uma entrevista recente de Madonna, em que ela disse: “Sempre que você estiver se sentindo mal, saia para dançar. Isso vai te salvar”. O quão importante é a dança ou o dance-pop para você?
CRJ – No estúdio, eu simplesmente sinto quando preciso me mover. É uma energia contagiante. Quando estou compondo, geralmente fico quieta e entregue aos meus sentimentos, mas também sinto a necessidade de levantar e começo a dançar. Já nas pistas de dança… são raras as noites em que eu me aventuro nas baladas e penso: “Uau! Que louco”. Sou uma pessoa mais reservada na forma como escuto música. Gosto de dançar sozinha com a minha imaginação na minha casa. É quando eu realmente sinto que consigo me soltar. E era isso que eu queria fazer [com esse álbum]: um convite para as pessoas se soltarem não só nas boates, mas também em suas próprias casas. Nossas fantasias e imaginação podem assumir o controle mesmo na vida adulta, o que é muito legal.
PP – A família também é grande parte de “Day and Night”, principalmente com a faixa “Motivation” trazendo não só a relação com seus pais, mas também com sua própria filha. Como a maternidade mudou ou influenciou o seu trabalho?
CRJ – Eu me sinto muito abençoada por ter quatro pais – meus pais, meu padrasto e minha madrasta – com ótimas intenções e muito amor, mas acho que nenhum filho de um divórcio sai ileso. É só quando você se torna mãe que a magia acontece: você começa a olhar para seus próprios pais e tudo o que eles fizeram, aí ou você fica com muita raiva ou você perdoa tudo. Eu perdoei e falei: “Vocês arrasaram” (risos). Você passa a compreender os sacrifícios e o cuidado que eles tiveram. Eu mesma olho para o meu filho todos os dias e penso: “Como eu acerto?”. A verdade é que não há respostas para isso. Você apenas tenta dar o seu melhor.
Eu espero que “Motivation” seja interpretada como uma música de amor – não só para a minha família, mas para todas as famílias, incluindo aquelas que não são de sangue. Para mim, era muito importante que essa música fosse uma celebração para todo mundo.
PP – Um adendo: você vem sendo chamada de “mãe” por milhares de gays e garotas há anos, antes mesmo de se tornar, de fato, mãe! Como se sente com esses comentários?
CRJ – É maravilhoso. É uma honra. Eu nem sei o que dizer, só sei rir. É muito legal! (gargalhadas)
PP – Você trabalhou com um diretor brasileiro, Caio Vieira, tanto em “Motivation” quanto em “On Wires”. Como essa parceria aconteceu?
CRJ – Eu pesquisei muito antes de encontrar a minha equipe criativa. João [Moraes], que é um diretor brasileiro também, me apresentou a Caio. Ele é um unicórnio porque tem uma visão única e linda. Ele me acolheu quando eu estava grávida de seis meses para gravar “On Wires”. Eu estava muito nervosa porque a música é bem sedutora, mas lá estava eu, grávida, no videoclipe… como isso iria dar certo? (risos). Tivemos que pensar muito. Quando ele me trouxe a ideia de honrar e não esconder a gravidez, me pareceu certo. Aprendi que colaborações elevam as coisas. Adoro trabalhar com pessoas com visão. Caio sempre traz ideias e é maravilhoso vê-lo fazer o que ele faz. Sou muito, muito, muito grata.
PP – Por falar no Brasil, você já tem planos para voltar e fazer shows por aqui?
Vocês não conseguem ficar longe de mim! (risos) Ir ao Brasil foi uma das melhores viagens da minha vida. Até hoje, eu e meu marido falamos sobre a última vez em que estivemos aí [para o Primavera Sound São Paulo, em 2023]. A praia, a comida, a música… foi demais. Então, sim! Voltaremos assim que pudermos!
Há 10 anos a @carlyraejepsen mudava o cenário do pop com o lançamento do
“Emotion”. E eu ainda não superei “Run Away With Me” ao vivo! 🥹#CarlyRaeJepsenNoMultishow pic.twitter.com/fC1sNB8iGO— Multishow (@multishow) June 24, 2025
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