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Na corrida pelo próximo fenômeno, quem estamos deixando de enxergar? · Mundo da Música

Existe uma pergunta que virou obsessão na indústria da música: quem é o próximo fenômeno? Quem vai ser o próximo grande nome? Quem vai viralizar? Qual talento as gravadoras precisam fechar antes que outra empresa chegue primeiro? Eu entendo a lógica. Tenho mais de dez anos trabalhando com desenvolvimento artístico, gestão de carreira e estratégia, […]

Mundo da Música


Existe uma pergunta que virou obsessão na indústria da música: quem é o próximo fenômeno?

Quem vai ser o próximo grande nome? Quem vai viralizar? Qual talento as gravadoras precisam fechar antes que outra empresa chegue primeiro?

Eu entendo a lógica. Tenho mais de dez anos trabalhando com desenvolvimento artístico, gestão de carreira e estratégia, e sei que ler tendência faz parte do jogo. O problema é quando essa obsessão pelo próximo fenômeno faz a indústria parar de enxergar quem já está construindo uma carreira e, principalmente, quem está construindo uma cena.

Hoje tenho a sensação de que estamos olhando pro lugar errado. Vivemos numa cultura de imediatismo em que tudo precisa acontecer rápido: o lançamento precisa performar, o vídeo precisa viralizar, o artista precisa crescer, a próxima aposta precisa aparecer ontem.

Toda uma economia – e uma cena – para além do topo dos charts

As redes sociais mudaram a forma como descobrimos música segundo relatório da TikTok e da Luminate. 84% das músicas que entraram na Billboard Global 200 em 2024 viralizaram primeiro no TikTok. Isso mostra a força da rede na descoberta, mas também expõe uma confusão perigosa: começamos a tratar a descoberta como se fosse desenvolvimento.

E os números mostram o tamanho real desse problema. Um relatório da Luminate aponta que quase 3 milhões de músicas não rendem um centavo em streaming. O Spotify só paga royalties a partir de mil reproduções por ano e 175,5 milhões de faixas nem chegam perto disso. Na prática, 86,88% de toda a música disponível no Spotify não gera nenhuma receita. E mais: cerca de 95% de todos os artistas na plataforma têm menos de mil ouvintes mensais.

Dani Pepper escreve sobre uma ‘trava’ da indústria musical em conseguir voltar o olhar para artistas que ainda não ocupam o centro dos holofotes. (CRÉDITO: Unsplash)

Isso não é detalhe. Isso é o retrato de uma indústria inteira apostando fichas na exceção no 1% que viraliza enquanto ignora os outros 99% que estão ali, tentando construir algo real sem holofote nenhum.

Ao mesmo tempo, existe vida e dinheiro muito além do topo das paradas. Segundo o Spotify, mais de 80% dos artistas que faturaram US$1 milhão ou mais em royalties em 2025 não tiveram sequer uma música no Top 50. Mais de 81 mil artistas geraram pelo menos US$10 mil no mesmo período. Existe uma economia inteira funcionando fora do radar de quem só olha para o topo de parada.

Mesmo assim, o mercado continua procurando só quem já provou que sabe chamar atenção em escala.

O Brasil tem uma produção musical gigante e diversa, mas a atenção, o investimento e a oportunidade continuam concentrados nos mesmos lugares, nas mesmas referências, a partir dos mesmos indicadores. Enquanto isso, tem artista construindo cena inteira fora desse radar… Pedro Emílio, Ryan, Tom Ribeira, Matheus de Bezerra, entre tantos outros. Não são nomes que precisam de oportunidade. São nomes que já fazem parte de movimentos reais, com público, linguagem e identidade formados.

Desacelerar não é ignorar número. É entender o que o número está dizendo e, principalmente, o que ele não diz. Um lançamento pode não viralizar e, ainda assim, crescer público, lotar show, formar comunidade, revelar uma linguagem que vale a pena desenvolver. Um viral pode levar milhões de pessoas até uma música sem construir carreira nenhuma. São coisas diferentes, e o mercado insiste em tratar como sinônimo. O que mais tem é artista com milhões de ouvintes mensais e com dificuldade de fechar um show com cachê de R$2.000,00.

Investir em quem ainda batalha para construir espaço

O trabalho que eu faço é equilibrar isso: responder ao presente sem comprometer o futuro. Olhar dado, tendência e comportamento, mas também repertório, consistência, identidade, público e capacidade de evolução. Nem toda decisão precisa ser pensada pro mês que vem. Algumas precisam ser pensadas para os próximos anos.

Não existe fórmula única para construir artista. Uns crescem rápido. Outros levam anos até encontrar o público certo. Uns começam em grande centro, outros constroem cena local primeiro e só depois cruzam fronteira.

O que todos precisam é espaço para construir identidade.

Por isso, acredito que a pergunta certa para a indústria não é “quem é o próximo fenômeno?”. É “quem estamos deixando de enxergar?”.

O próximo grande artista pode estar fazendo show para algumas centenas de pessoas. Pode estar construindo comunidade numa cidade que nunca aparece nas grandes conversas da indústria. Pode nem ter número suficiente para chamar atenção de gravadora, mas já ter o que nenhum algoritmo fabrica: identidade.

A indústria não pode viver um passo atrás do que já deu certo. Precisa ter coragem de olhar antes, acompanhar o processo, investir em quem ainda está construindo espaço. Porque quando esperamos um nome virar fenômeno para só, então, reconhecer, a parte mais importante do trabalho já aconteceu sem a gente.

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Dani Pepper é empresária, curadora, comunicadora e gestora de carreiras. No início do segundo semestre deste ano, assumiu o cargo de CEO da K2L, empresa de Planejamento Estratégico Artístico que já impulsionou a carreira de nomes como Anitta, Kevin o Chris, Lexa, Rebecca e Tília. Também está por trás do Urban Pop, escritório de assessoria musical.





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