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11 anos depois, Sant ainda busca “o que separa os homens dos meninos”

Quando o raper Sant começou a construir O Que Separa os Homens dos Meninos, tinha apenas 16 anos. Foram outros quatro até que aquele conjunto de experiências, inquietações e feridas ganhasse definitivamente o mundo, em 2015, transformando um jovem da Zona Norte do Rio de Janeiro em uma das vozes mais potentes de sua geração. […]

Sant

Quando o raper Sant começou a construir O Que Separa os Homens dos Meninos, tinha apenas 16 anos. Foram outros quatro até que aquele conjunto de experiências, inquietações e feridas ganhasse definitivamente o mundo, em 2015, transformando um jovem da Zona Norte do Rio de Janeiro em uma das vozes mais potentes de sua geração. Mais de uma década depois, ele apresenta uma capacidade de compreender melhor as perguntas que fazia quando ainda era adolescente.

É o tempo, mais do que qualquer conclusão definitiva, que organiza O Que Separa os Homens dos Meninos Vol. II. O álbum utiliza suas 11 faixas para colocar passado e presente em diálogo enquanto Sant observa aquilo que conquistou, perdeu, preservou e ainda tenta compreender desde sua estreia. Nesse intervalo, deixou o território onde cresceu e voltou para ele, interrompeu sua relação com o rap e retomou a carreira, atravessou diferentes estruturas da indústria musical e construiu uma família.

“Com 16 anos, querendo descobrir essas coisas por causa desse amadurecimento forçado, tentava pontuar coisas que separam os homens dos meninos”, explica ao TMDQA!. “Acho que agora, nesse segundo volume, o que trouxe desses questionamentos foi que o tempo vai colocando cada coisa e cada pessoa no lugar. Cada homem, cada menino, no seu devido lugar.”

A afirmação ajuda a compreender por que o segundo volume não funciona simplesmente como a resposta adulta ao disco criado pelo adolescente. Sant reconhece que hoje possui uma identidade artística, profissional e pessoal muito mais estabelecida, mas continua se enxergando em processo. O tempo lhe ofereceu novas ferramentas para interpretar experiências que antes precisavam ser colocadas para fora quase em estado bruto, sem necessariamente solucionar os conflitos que originaram aquelas músicas.

Se o primeiro disco carregava a vontade de um incendiário, no segundo ele se enxerga mais próximo de um bombeiro. Não porque o fogo tenha desaparecido, mas porque sua relação com ele mudou. “No primeiro disco, eu precisava libertar essas coisas, senão iam virar túmulos. Eu ia guardar essa parada, o menor quietão lá na minha. Então precisava soltar mesmo”, recorda. Foi a partir daquele grito que Sant pôde reorganizar a relação com o pai, lidar com determinadas feridas e, anos mais tarde, experimentar a própria paternidade.

Nem tudo mudou

Seria simples transformar os 11 anos entre os dois volumes em uma narrativa linear de ascensão: o garoto cresceu, tornou-se um rapper reconhecido, construiu uma família e agora olha para trás com a segurança de quem venceu. O novo álbum se torna mais interessante justamente quando essa interpretação deixa de funcionar.

Sant mudou, mas o mundo ao seu redor nem sempre acompanhou essa transformação. Durante uma passagem recente pelo Rio de Janeiro para se apresentar no Rock in Rio, o rapper estava hospedado na Zona Sul com a esposa e o filho quando reconheceu no motoboy, de um pedido de aplicativo de entrega, um antigo amigo dos tempos em que O Que Separa os Homens dos Meninos sequer havia sido lançado. Onze anos tinham colocado os dois em circunstâncias muito diferentes, embora bastasse uma breve conversa para que as memórias compartilhadas voltassem à superfície.

O episódio se soma a acontecimentos mais duros vividos durante a produção audiovisual do projeto. Amigos morreram no período das filmagens e RN, um dos personagens presentes no curta que acompanha o álbum, foi baleado pouco depois de participar das gravações. São experiências que impedem Sant de tratar o tempo simplesmente como sinônimo de progresso.

“Algumas coisas nunca mudam. Mas algumas coisas mudam também. A gente tem que celebrar alguma vitória, conseguir fazer alguma coisa, se forçar para fazer essas mudanças acontecerem”, afirma. “Estou nessa balança. Esse momento, para mim, é essa balança desse tempo.”

É justamente nessa balança que o álbum encontra parte de sua profundidade. O tempo permitiu a Sant alcançar lugares que pareciam distantes quando começou a escrever o primeiro volume, mas também lhe mostrou que a transformação individual não é suficiente para modificar automaticamente as estruturas ao redor.

As flores que Sant decidiu receber

A quantidade de convidados é outro elemento que chama atenção em O Que Separa os Homens dos Meninos Vol. II. Bia Ferreira, Céu, L7NNON, Duquesa, Tiago Mac, Lil Whind, 2ZDinizz, Clara Lima, ADL, Pecaos, DJ KL Jay e outros artistas aparecem ao longo do projeto, conectando referências, relações e diferentes gerações acumuladas durante a trajetória de Sant.

Desta vez, porém, existe uma diferença na maneira como o rapper compreende essas participações. Se em outros momentos enxergava os convites também como uma oportunidade de dividir espaço com artistas nos quais acreditava, agora admite que queria receber de volta parte desse reconhecimento. “Nesse disco, eu queria mesmo que me dessem esse holofote, que as participações me legitimassem, que elas completassem essas esferas com uma outra perspectiva, mas com uma perspectiva de autoridade”, explica.

A ideia ajuda a entender por que Emicida ocupa justamente a faixa que carrega o nome do projeto. Para Sant, sua presença nunca foi intercambiável. “Não tinha como ser outro cara. Pensar em fazer O Que Separa os Homens dos Meninos 2… tinha que chutar um verso do Emicida. Eu vou mirar na Lua. Se acertar uma estrela, tá. Mas não tinha como não ser esse cara. É ele.”

Antes da colaboração, os dois conversaram por videochamada. Sant apresentou o filho, chorou e ouviu músicas que Emicida preparava para seu próprio trabalho. Para além do que um feat de prestígio, o encontro ganhou significado dentro de um disco interessado justamente em registrar as pessoas e relações acumuladas durante esses onze anos.

Uma pergunta que ainda precisa existir

Sant sempre imaginou O Que Separa os Homens dos Meninos como uma trilogia, mas sequer ele sabe atualmente qual será a resposta de seu capítulo final. Durante a produção do primeiro volume, chegou a conceber outra continuação, organizada a partir de um ciclo que acompanharia diferentes momentos do dia. A vida avançou, aquelas ideias perderam sentido e o segundo disco acabou se tornando algo completamente diferente.

Quando questionado sobre o que precisa acontecer com esse personagem para que a trilogia possa terminar, Sant não tenta criar uma conclusão que ainda não existe. “Não sei. Sei que ele vai existir, sei que ele precisa existir. Quero fechar essa obra com chave de ouro, mas não sei quais elementos são necessários para isso agora”, admite. “Por mais que agora esteja muito mais convicto, muito mais responsável, muito mais consciente, muito mais capacitado, eu ainda estou na busca.”

É provavelmente essa admissão que melhor distancia o segundo volume de uma narrativa simplista sobre amadurecimento. 11 anos atrás, Sant transformou em título uma pergunta para a qual ainda não tinha repertório suficiente para responder. Hoje, depois de se tornar pai, construir uma família, conquistar espaço dentro do rap, perder pessoas e reencontrar outras, poderia utilizar a continuação para assumir a autoridade de quem finalmente descobriu o que separa homens de meninos. Prefere reconhecer que algumas respostas continuam escapando.

Talvez seja justamente por isso que Sant descreva O Que Separa os Homens dos Meninos como “a obra da sua vida”. A pergunta formulada na adolescência cresceu junto com ele e acabou se tornando uma maneira de medir aquilo que o tempo foi capaz — ou incapaz — de transformar. O segundo volume não resolve essa equação, mas encontra sua força ao reconhecer que amadurecer também pode significar aprender a conviver com aquilo que ainda não se sabe.



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