Clive Davis, um dos executivos mais influentes da história da indústria fonográfica, morreu hoje (22) aos 94 anos. A informação foi confirmada pela família do produtor e empresário, que havia sido hospitalizado recentemente por problemas respiratórios e se recuperava em casa.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Davis assinou, guiou ou reposicionou nomes que atravessaram gerações, entre eles Whitney Houston, Bruce Springsteen, Janis Joplin, Santana, Alicia Keys, Aretha Franklin, Billy Joel, Aerosmith, Patti Smith e Barry Manilow. Sua trajetória passou por cargos de comando na Columbia Records, Arista Records, J Records, RCA Group, BMG North America e Sony Music Entertainment.
Para além de um executivo de gravadora, Clive Davis se tornou uma figura associada ao trabalho de identificação de repertório, formação de imagem e leitura de mercado. Em uma indústria que passou por muitas mudanças de formato, do vinil ao streaming, ele representou um tipo de liderança que misturava poder corporativo, escuta artística e interferência direta nas decisões criativas.
De advogado da Columbia a executivo que mudou o rock nas gravadoras
Nascido em 4 de abril de 1932, no Brooklyn, em Nova York, Clive Davis se formou em ciência política pela New York University e, depois, em direito por Harvard. Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da música, trabalhou como advogado e foi contratado pela Columbia Records, então ligada à CBS, primeiro como conselheiro jurídico.
Sua ascensão dentro da companhia foi rápida. Em 1967, Davis assumiu a presidência da Columbia e passou a conduzir uma mudança de direção em um catálogo que ainda estava muito ligado a musicais da Broadway, música clássica e artistas de perfil mais tradicional. A virada veio com a entrada de nomes do rock, do folk e da música jovem em um momento em que o mercado passava por uma transformação de consumo e comportamento.
Entre os movimentos mais lembrados está sua ida ao Monterey Pop Festival, em 1967, experiência que o levou a contratar Janis Joplin com o Big Brother and the Holding Company e Santana. A partir dali, a Columbia passou a disputar um espaço que outras gravadoras já observavam com atenção: o público jovem que via no rock não só entretenimento, mas também identidade, linguagem e ruptura cultural.
Davis descreveu esse processo como uma descoberta inesperada de sua própria escuta.
“Aprendi na hora. Descobri por acaso que tinha um dom totalmente inesperado e inexplicável: ouvidos. Isso foi uma grande surpresa, mas eu podia, e iria, descobrir grandes artistas de todos os tempos.”
Whitney Houston, Arista e a lógica do artista global
Depois de deixar a CBS em 1973, Clive Davis fundou a Arista Records em 1974. O selo se tornaria o principal território de sua atuação como executivo de desenvolvimento artístico. Ali, trabalhou com artistas como Aretha Franklin, Dionne Warwick, Patti Smith, Grateful Dead, Carly Simon, Barry Manilow e Alicia Keys.
A parceria mais famosa, porém, foi com Whitney Houston. Davis contratou a cantora quando ela tinha 19 anos, em 1983, e participou de quase todos os seus álbuns. A estratégia envolvia repertório pop, presença televisiva e uma construção cuidadosa de imagem para transformar uma voz de formação gospel e soul em uma artista de alcance mundial.
Esse modelo ajudou Whitney Houston a chegar a públicos muito diferentes, mas também abriu debates sobre mercado, raça e cruzamento de gêneros. A popularidade da cantora entre audiências brancas gerou críticas de parte do público negro, que a acusava de soar “pop demais”. Davis sempre contestou essa leitura e dizia que o incômodo atingia os dois.
“Isso incomodava ela e a mim. Quero dizer, Whitney é uma mulher negra. É boba e rasa a crítica que você recebe quando cruza fronteiras.”
O caso ajuda a entender a marca de Clive Davis na indústria. Ele acreditava que grandes artistas podiam ser trabalhados para atravessar formatos, rádios, públicos e países. Essa visão trouxe resultados comerciais enormes, mas também rendeu críticas de artistas que viam sua interferência como dura demais.
O documentário que levou sua história à Netflix
A trajetória de Clive Davis também ganhou registro no documentário “Clive Davis: Nosso Ritmo”, lançado em 2017 e dirigido por Chris Perkel. O filme acompanha cerca de 50 anos de carreira do executivo e usa entrevistas, imagens de arquivo e apresentações para mostrar como suas decisões ajudaram a organizar parte da música pop como o público conhece hoje.
A produção passou pelo Festival de Tribeca, em Nova York, onde abriu a edição de 2017 com uma sessão no Radio City Music Hall e um show em homenagem a Davis. A escolha do festival ajuda a dimensionar o lugar que ele ocupava na cultura norte-americana: não era apenas um executivo lembrado por contratos, mas uma figura tratada como personagem central na construção de carreiras, catálogos e momentos que marcaram a música popular.
No documentário, aparecem nomes como Paul Simon, Carlos Santana, Alicia Keys, Sean Combs, Rod Stewart, Bruce Springsteen, Aretha Franklin, Art Garfunkel, Berry Gordy e Barry Manilow. A lista funciona quase como uma linha do tempo da própria indústria, já que reúne artistas ligados a diferentes fases do mercado, da explosão do rock nas grandes gravadoras ao R&B e ao pop dos anos 1990 e 2000.
O filme também ajuda a entender por que Clive Davis se tornou uma figura tão associada ao poder de decisão dentro das gravadoras. Ao revisitar sua passagem pela Columbia, pela Arista e pela J Records, a produção mostra como ele enxergava o trabalho de uma gravadora: escolher repertório, posicionar artistas, defender singles e criar condições para que uma voz local pudesse virar um nome global.
Um legado entre hits, disputas e poder de decisão
A reputação de Clive Davis sempre combinou admiração e controvérsia. Para alguns, ele era o executivo com “ouvidos de ouro”, capaz de perceber uma canção, uma voz ou uma carreira antes do mercado. Para outros, era uma figura controladora, que moldava repertórios e imagens com pouco espaço para a vontade dos artistas.
Essa tensão aparece em vários momentos de sua trajetória, de Simon & Garfunkel a Kelly Clarkson. Davis dizia saber quando uma música tinha força para ser single, mesmo quando contrariava os próprios artistas. No caso de “Bridge Over Troubled Water”, ele defendeu a escolha da faixa como primeiro single do álbum de mesmo nome, apesar da resistência inicial da dupla.
A influência de Davis também alcançou o hip-hop e o R&B dos anos 1990. Na Arista, ele participou da criação da LaFace Records, com L.A. Reid e Babyface, e da Bad Boy Records, com Sean Combs, o Diddy. Essas estruturas foram fundamentais para o crescimento comercial de artistas como TLC, Toni Braxton, Usher, OutKast, The Notorious B.I.G. e Faith Evans.
Clive Davis ganhou Grammys como produtor, entrou para o Rock and Roll Hall of Fame em 2000 na categoria de não intérpretes e financiou o Clive Davis Institute of Recorded Music, ligado à New York University. Em 2008, foi nomeado diretor criativo da Sony Music Entertainment.
Quando perguntado se havia se cansado da indústria, em entrevista à NPR em 2013, Davis respondeu: “Nunca”. Para um executivo que ajudou a criar algumas das maiores carreiras da música popular do século 20, a frase funciona como síntese de uma vida inteira dedicada a transformar talento em catálogo, repertório em mercado e artistas em nomes permanentes da cultura pop.
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