Os CDs voltaram a registrar sinais de crescimento no mercado musical, em um movimento que envolve artistas independentes, fãs jovens e cenas fortemente guiadas por comunidades, como o K-pop. Depois de anos em que o formato foi tratado como peça do passado, novos dados mostram que ele começa a ganhar outra função na economia da música física.
O avanço ainda não coloca o CD no mesmo patamar do vinil, que segue como o principal símbolo da retomada dos formatos físicos. Mas o disco compacto passou a ocupar um espaço próprio: mais barato, mais prático para venda em shows e mais acessível para uma geração que cresceu no streaming, mas também passou a valorizar produtos colecionáveis.
Dados recentes da Disc Makers, uma fabricante norte-americana de mídias físicas, indicam que a receita com CDs cresceu 9% no acumulado do ano, com alta de 18% em abril e 24% em maio até a publicação do levantamento. O dado chama atenção porque a empresa atribui parte desse crescimento a adolescentes e universitários, e não apenas a colecionadores que viveram o auge do formato nos anos 1990 e 2000.
Preço, coleção e shows ajudam a explicar o novo fôlego dos CDs
O argumento econômico é um dos mais fortes. A Disc Makers aponta que discos de vinil novos costumam chegar ao varejo entre US$ 25 e US$ 40, enquanto CDs novos ficam geralmente entre US$ 10 e US$ 14, com preços ainda menores em lojas de usados. Para um adolescente ou estudante que compra música com orçamento limitado, essa diferença pesa.
A percepção encontra respaldo em uma pesquisa da Key Production, empresa britânica ligada à produção de formatos físicos. Segundo o levantamento, 59% dos jovens de 18 a 24 anos ouvidos escutavam vinil, CD ou cassete ao menos uma vez por semana, índice superior ao das faixas etárias mais velhas. Quando a pergunta era sobre compra de CDs, o grupo de 18 a 24 anos aparecia no topo, com 34%, empatado apenas com a faixa de 45 a 54 anos.
Esse dado ajuda a ajustar a narrativa. A volta do CD não significa um retorno ao mercado de massa de duas décadas atrás. O que aparece é uma nova função para o formato: menos “tecnologia dominante” e mais item de fã, compra de show, lembrança autografada, objeto de prateleira e alternativa física mais barata que o vinil.
K-pop mostra como o CD virou produto de superfã
Os dados da Luminate dão outra camada ao debate. Nos Estados Unidos, o vinil ainda foi o formato físico mais comprado em 2025, com 47,8 milhões de unidades, contra 33,8 milhões de CDs. Mesmo assim, o CD ganhou ritmo na segunda metade do ano: foram 8,3 milhões de unidades no terceiro trimestre, alta de 12,3% sobre o trimestre anterior, e 11,4 milhões no quarto trimestre, avanço de 15,8%.
Parte desse movimento passa pelo K-pop. Em 2025, sete dos dez CDs mais vendidos nos Estados Unidos eram de grupos do gênero, como Stray Kids, ENHYPEN, ATEEZ e TOMORROW X TOGETHER. O álbum “Karma”, do Stray Kids, vendeu 585 mil unidades físicas, sendo 524 mil em CD. Já a mixtape “DO IT” saiu fisicamente apenas em edição limitada em CD e chegou a 456 mil unidades.
A Luminate também mostra que 27% dos fãs de K-pop nos Estados Unidos disseram ter comprado CDs em 2025, contra 19% dos ouvintes de música em geral. Quase um quarto desses fãs comprou entre cinco e nove CDs em 12 meses. O formato funciona porque vem junto de photobooks, cards, capas diferentes e outros itens que transformam cada edição em um produto de coleção.
O formato físico cresce, mas o streaming segue dominante
Segundo a IFPI, Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a receita global de formatos físicos voltou a crescer em 2025, com alta de 8%, depois de queda no ano anterior. O relatório aponta que o avanço foi puxado principalmente pelo vinil, que cresceu 13,7%, mas o dado mostra que a busca por experiências tangíveis não desapareceu na economia do streaming.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar exageros. A RIAA, Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos, mostra que o vinil segue muito à frente no mercado norte-americano: em 2025, vendeu 46,8 milhões de unidades, contra 29,5 milhões de CDs, e gerou mais de três vezes a receita do disco compacto.
Ainda assim, o CD pode ter uma vantagem específica para artistas independentes. Os dados revelados pela Disc Maker apontam que uma banda jovem pode fabricar um CD por cerca de US$ 2 e vender o item por US$ 10 ou US$ 15 em shows. Ou seja, o disco físico deixa de ser apenas uma lembrança do passado e vira uma ferramenta direta de receita, especialmente em carreiras que ainda não conseguem transformar streams em dinheiro suficiente.
Em vez de disputar espaço com o streaming ou com o vinil, o CD reaparece em outra função: como produto acessível, item de coleção e peça de conexão direta entre artistas e fãs. Para uma geração que cresceu ouvindo música em plataformas digitais, ter um disco nas mãos virou menos um gesto nostálgico e mais uma forma concreta de demonstrar pertencimento.
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