“Eu me sinto cada vez mais pronto, mais preparado”. A frase de Rafa Dias, também conhecido como RDD, resume o momento vivido pelo produtor musical, DJ e cantor no lançamento de Hot Sauce, seu primeiro disco solo.
Após anos acumulando experiências e fazendo novas conexões artísticas e culturais, o músico baiano reúne em seu projeto mais recente ideias que começaram a surgir há quase uma década e que foram se desenvolvendo ao longo do tempo.
Em Hot Sauce, RDD, que também está à frente do ÀTTØØXXÁ, realiza um desejo antigo de explorar uma estética mais minimalista reunindo elementos de diversos estilos como pagodão baiano, samba-reggae, arrocha, funk, afrobeats e o dancehall, sempre atravessados pela identidade percussiva da Bahia.
Em conversa com o TMDQA!, Rafa revela mais detalhes sobre a criação do álbum e qual foi o principal desafio durante o processo de um disco que reúne não só vários gêneros como artistas de diferentes estilos, incluindo nomes nacionais como Karol Conká, Maui, Rachel Reis, Luccas Carlos e músicos internacionais como Afro B e Mr. Williamz.
Confira a conversa na íntegra logo abaixo e, ao final da matéria, ouça o novo disco de RDD!
TMDQA! Entrevista RDD
TMDQA!: Rafa, eu vi você falando que algumas músicas do “Hot Sauce” surgiram quase 10 anos atrás, e você foi desenvolvendo esse disco ao longo dos últimos anos. Como você está se sentindo em finalmente compartilhar todas essas músicas?
RDD: Na máxima energia possível. Eu sempre tive essa visão desde o início do “Hot Sauce” de como fazer uma música mais minimal. Então eu venho pensando nesse caminho há muito tempo, amadurecendo, aproveitando minhas idas e vindas aí mundo afora para me conectar com as pessoas que me marcaram. Então, sei lá, Rael, Karol Conká, Luccas Carlos, são pessoas que eu tenho como amigos, como brothers, tô em Sampa, tô dando rolê com eles, os caras vêm pra cá, a gente sai. Então eu queria que fosse uma coisa assim, bem natural. E musicalmente falando, eu queria trazer um pouco mais dessa coisa minimal que eu explorei no primeiro disco do ÀTTØØXXÁ, que tem um pouquinho disso, só que de uma forma bem undergroundzão, né? E também tem essa coisa técnica, que depois de todos esses anos de muito estudo, de muita elaboração, hoje eu consigo fazer uma entrega exatamente como tá na minha cabeça, sabe? Quando eu comecei o ÀTTØØXXÁ era apenas tentando chegar num lugar. Hoje, realmente, eu consigo chegar onde eu quero muito claramente, consigo me conectar com as pessoas muito facilmente, a barreira da língua também me ajudou muito. Então, eu acho que o natural fala muito nesse disco. As coisas estando no momento certo, na hora certa, eu me sinto cada vez mais pronto, mais preparado. Então, tudo está sendo, realmente, muito delicioso de viver e esse momento vai ser demais.
TMDQA!: As primeiras prévias desse disco foram “Joga a Bunda”, com Mano John, Diggo e Salamanka, e “Energy”, parceria com o Maui e o Anik Khan, o que te motivou a escolher essa música para apresentar o álbum?
RDD: Então, eu já tava um pouquinho com aquela ansiedadezinha, porque, depois de muito tempo e, como dizem, as coisas vão acontecendo e a gente vai vivendo e vivendo. Esse disco, eu estava imaginando que ele fosse sair em 2024, se não me engano, ou era 2023, já tinha um tempo. Não tinham todas essas faixas, seriam outras faixas e tal. E, no momento, eu me lembro que o [disco] “Groove” do ÀTTØØXXÁ saiu e, logo depois, Raoni saiu da banda e aí rolou um vendaval na minha vida, que eu tive que virar cantor… Rolou uma turbulência aí nesse meio tempo, mas, como eu falei, eu sempre encaro as coisas como “aconteceu, ok, a coisa vai sair na hora certa, no tempo certo”. E eu acho que eu estava preparando esse momento de como chegar nas pessoas, como seria o primeiro passo e tudo mais e “Joga a Bunda” saiu naquele primeiro passo de uma música onde as pessoas já me identificam. Que é tipo pagodão de pista da Bahia, lancei no verão, então acho que ela tem essa função de pagodão, pista, Bahia, todo mundo já se identifica com essa coisa, com essa minha linguagem.
Quando a gente pensou em lançar “Energy” pós-carnaval, ela já vem nesse outro olhar de, ó, vocês vão ver esse RDD clássico, mas agora vocês também vão fazer uma outra viagem por outros lugares que eu nunca passei ou nunca passei de uma forma mais profunda. Acho que esse disco tem uma profundidade estética, o nome do disco do “Hot Sauce” tem essa coisa dos sabores, então a gente tava pensando muito em como… Eu falo a gente porque quando eu comecei eu tava muito nessa viagem, era eu e Roger na época da MAP, a gente tava pensando em quais seriam os caminhos, já tinha alguns beats assim, mas quando a gente formou a ideia mesmo de fazer um disco, a gente tava nessa coisa de passar, fazer um caminho pela Afrodiáspora de fato e de entregar uma Salvador, uma Bahia não tão convencional ao que a galera espera, de muita percussão. Então essa coisa do minimal e o tempero, ela vem no detalhe, né? Ele tá em algum instrumento, em algum sonzinho que vai lhe transportar pra Bahia, se você estiver atento, que é aquele temperinho que eu tô falando no disco do “Hot Sauce”, aquela pimentinha que a gente bota ali, às vezes é uma pimenta de cheiro, que é só pra… E às vezes é uma pimenta mesmo que é… Hum, malagueta, tome! Sabe?
TMDQA!: Eu ia te perguntar exatamente sobre esse “molho”. Esse disco tem uma sintonia forte com a Bahia, incluindo o título “Hot Sauce”, que faz essa relação com o molho e a intensidade baiana. O que o molho das produções baianas, e do seu disco, tem de diferente de outras cenas globais hoje em dia?
RDD: Eu acho que, de certa forma, a Bahia prepara a gente pra meio que acumular culturas. Se você for pensar em um pagodão, o pagodão ele tem uma célula rítmica que é do xequerê que vem da América Central, aí tem um pouquinho daqui do recôncavo, a Conga de Cuba, então eu acho que quando eu começo a produzir minhas primeiras coisas, lá em 2008, 2009, eu já tinha muito esse desejo de transformar essas pequenas linguagens que a gente absorve aqui do arrocha, do samba reggae, em uma linguagem que fosse pra pista, que é uma coisa que tá sempre dentro do meu trabalho, e eu acho que o “Hot Sauce”, eu tento levar isso pra um universo um pouco mais pop, pra uma coisa que em qualquer lugar que você fosse tocar, as pessoas iriam se identificar. E eu tive a oportunidade de estar viajando pelo mundo, e como esse disco vai sair agora, mas as músicas já estão aí, eu já experimentei elas em vários lugares, e realmente eu acredito que eu cheguei nessa conexão.
Eu me lembro tocando numa balada em Londres, que era tipo um container, e eu tocando a primeira faixa do disco, e nem tinha esse feat gringo ainda, era só eu cantando, em português, e tipo assim, estava um caos, o povo muito louco. Toquei num festival em Portugal, e convidei até o Japa System, pra tocar comigo, e a gente experimentou algumas dessas faixas também, a “AYAYA”, que é a faixa título, eu me lembro ter tocado ela, eu fiz um editzinho com ela, comecei com o hook do brother, e botei uma música de Black Eyed Peas no meio dela, a capela, e o festival veio abaixo. Então, eu acho que é isso, eu acho que o “Hot Sauce”, ele vem um pouquinho mais refinado para o mundo. Eu sinto que o ÀTTØØXXÁ, por ter essa coisa banda, o mundo absorve, mas tem aquele primeiro impacto de estranheza. Porque é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, a percussão carregadíssima, e os gringos adoram, mas tem aquele baque “nossa, o que é isso?” Eu acho que a experiência desse disco é um pouco mais, talvez mais mastigada, sei lá, podemos dizer assim.
TMDQA!: E uma coisa interessante é que você traz no disco participações de artistas de diversos lugares, do Rio, Curitiba, São Paulo, e também nomes internacionais, qual é o segredo pra trazer tantas referências e conseguir esse resultado coeso?
RDD: São 13 faixas no disco, mas eu fiz umas 40, 40 pra 50 faixas, com várias pessoas que eu amo. Tem mais músicas com Afro B, Luccas Carlos. Tem uma penca de músicas lá nos meus HDs. Tava vendo até uma entrevista de James Blake, com ele falando que 95% dos trabalhos dele não são remunerados, porque não são lançados, sabe? Comigo acontece muito disso também. Mas eu acho que tudo passa por uma história que você quer contar, né? Disco é aquele negócio… Eu já fiz muitos discos na minha vida, né? E sempre começa com o desejo de fazer o disco, você não sabe onde é que ele vai dar, mas aí você começa e daqui a pouco você fala “hum…” E aí quando você encontra esse fio da merda, tudo sai muito rápido. Então, eu acho que pra mim o que foi mais desafiador era mais o sentido de você conseguir fazer essas conexões do gringo com brasileiro e de uma pessoa que, por exemplo, Luccas Carlos cantando um arrocha.
Só que eu acho que como, eu falei assim, eu cheguei num momento que eu consigo colocar minhas ideias muito claras, musicalmente falando. Eu me lembro de Luccas Carlos chegando aqui, ele gravou aqui no meu estúdio, na WR, quando ele chegou lá, eu gravei uma faixa que ele lançou com O Poeta. Ele gravou e falou, “pô, e aí, tem mais nada não?” Aí eu botei umas quatro faixas, ele simplesmente começou a canetar e cantar tudo. E eu tive esse estalo de, nossa senhora, realmente eu acho que ou eu tô num momento que eu consigo realmente transcrever tudo o que tá dentro da minha cabeça pra um beat numa clareza que a galera muito facilmente quer fazer ou talvez o universo esteja querendo me jogar aí. Eu acho que cheguei num momento onde essa clareza fica muito foda pra ser trabalhada, sabe? Porque realmente é muito fácil você fazer conexão, é muito fácil você criar esses universos e juntar esses universos as pessoas realmente, como eu falei, a Afro B foi pra gravar uma faixa tem até música do ÀTTØØXXÁ, que ele não aparece, mas que a gente pegou o hook dele e transformou, ele tá lá na música também mas não cantou, e muito nessa parada de você tá numa sessão e naturalmente as coisas aí saindo, as pessoas estarem tão entregues naquele momento que querem fazer mais.
TMDQA!: E isso também é uma reflexo da sua dedicação ao longo de todos esses anos. E pensando nas sonoridades das suas produções, como você conseguiu conectar cada vez mais a percussão com as bases mais eletrônicas? Você sempre experimentou muito, né?
RDD: Então, eu acho que a percussão é a régua e o compasso da Bahia. A partir do ritmo tudo nasce, a música nasce no ritmo, então a percussão sempre fala muito alto e na nossa cultura isso é levado a uma potência muito grande. Eu já vinha de instrumentos desde criança, comecei no pandeiro, na percussão, e depois aprendi a tocar cavaquinho e fui migrando para as coisas de harmonia. Mas chegando em Salvador, em 2004, eu lembro do primeiro rolê que eu dei no Pelourinho e foi algo que me marcou muito. Eu criei um respeito muito grande com o ritmo e com a percussão. E foi o ritmo que me fez querer adentrar no universo da música eletrônica. Mesmo já conhecendo o MinistérioPúblico SoundSystem, foi em 2008 e 2009 que eu comecei a querer me jogar na música eletrônica. Um amigo me deu um programinha lá, o FruityLoops e eu comecei a mexer e fui pesquisando. Eu sempre fui também esse cara de pesquisa, meio nerdão mesmo e acompanhando a revolução mundial dessa música digital.
Eu olhava pra cá, com arrocha, pagodão, samba reggae, axé, Timbalada, tudo propício para ir além do que outros produtores já faziam. Na minha mente estava muito fácil de transcrever, porque dentro dos meus estudos eu conseguia ver o 808, que é o grave da música eletrônica, junto com qualquer surdo de pagodão ou qualquer tambor de sei lá, de um ijexá, por exemplo. Eu conseguia ver um repique soando com esses claps da música eletrônica, então na minha cabeça estava muito claro na época, eu só não sabia como chegar lá, mas a clareza de como juntar as peças já estavam ali. E corta isso pra quase 20 anos depois, eu fazendo isso, né? Que é o tempo da maturação, da vivência que você também vai adquirindo com o show. O ÀTTØØXXÁ mesmo é um experimento vivo da parada, com a gente entendendo as coisas. Todo mundo que passa pela banda aprende algo, é uma escola ali. Então acho que essa bagagem que vem amontoando, ela faz com que hoje eu consiga transcrever de forma muito simples esses ritmos, essas coisas que eu venho absorvendo no mundo inteiro e traduzindo ela pra uma coisa brasileira, baiana, com aquele temperinho nosso de uma forma bem lúcida, sabe?
TMDQA!: E falando sobre essas misturas de estilos e observando mercado ao longo desses anos, você sente que ainda existe uma resistência com essas músicas que misturam tantas referências ou isso já está mais natural hoje?
RDD: Eu acho que se explora mais. Eu acho que a gente talvez tenha até dado uma retrocedida um pouquinho na exploração. Eu sinto que quando a internet surge, esse campo do explorar ele vem junto, porque a gente abre um universo novo, até como eu falei sobre a música digital, que a gente abriu um universo de timbre, de som, que até então era o som que a gente sempre escutou… agora não, é um som que eu posso modular ele todo, comprimir, equalizar de uma forma que isso tudo muda. Então o som da bacurinha que a gente grava só com um monte de efeito vira outra coisa. Eu acho que quando você pega de 2005 até, eu penso que até um pouquinho antes da pandemia, 2019, 2020, essa coisa do explorar foi sendo elevada a um nível muito foda. Aí você pega desde o máximo da música eletrônica, que é Skrillex, fazendo aquele som de digital mesmo, que não existe em nenhum lugar, você só escuta ali, e passa por ÀTTØØXXÁ, que é a gente começando e o povo falando que é maluquice. Como assim? Você acha que isso aí vai dar certo? Na minha cabeça eu nem pensava em dar certo, eu só pensava, vou fazer a música que eu quero fazer. E eu sinto que a pandemia trouxe um pouquinho dessa falta de exploração, acho que a internet ficou mais cômoda, vieram as playlists de Spotify. E pô, depois de você viver um baque desse, a galera quer uma paz. Então eu sinto que a gente passou esse períodozinho um pouco menos explorado.
Agora eu acho que a galera tem feito coisas mais palatáveis, talvez, mais fáceis de se entender. Eu acho que a própria indústria se reorganizou, o business mesmo se reorganizou. Eu acho que a internet fez com que a indústria desse aquele baque e tentasse entender quais coisas iriam funcionar. E eu acho que hoje a gente deu um pouquinho de retrocedida nessa exploração, mas que tem voltado agora. Eu acho que depois desse baque da pandemia, eu acho que agora a gente tá num momento de voltar a explorar de novo. Então eu tenho visto agora aqueles dois caras de música instrumental que ficam fantasiados [Angine de Poitrine], que bombaram, nem lembro o nome deles agora, mas é uma música atonal, instrumental, que eu tô rolando meu feed e tá rolando 10 vezes os caras. Na minha cabeça era impossível isso acontecer, música instrumental. Eu acho que essa coisa de explorar tem voltado agora e eu acho que certos discos têm sido marcados por essa exploração. E eu acho que a coisa da IA também tá fazendo com que novamente a gente volte a explorar, pra ser diferente, porque hoje realmente botou um prompt lá, esqueça, tá lá.
TMDQA!: Pra gente encerrar, eu quero saber alguns discos ou artistas que foram seus melhores amigos durante o processo de criação do “Hot Sauce”?
RDD: Acho que inevitavelmente esse disco novo do Bad Bunny, Debí Tirar Más Fotos. É um disco que mostra como você pode explorar a raiz do seu lugar e levar pra um outro patamar, uma coisa que, né, talvez eu poderia ser um Bad Bunny… mas acho que aqui no Brasil a indústria funciona um pouco mais blasé, sabe? Ela é meio anti exploração e, sei lá, eu vi Bad Bunny ali e falei, “meu Deus do céu, eu faço isso minha vida inteira”. Inclusive, o próximo disco do ÀTTØØXXÁ, tem uma exploração muito foda nesse sentido, tá bem louco. Mas voltando, o disco de estreia do Kaytranada, “99.9%”, que entrou muito na minha cabeça, e em “Energy”, de alguma forma, tem alguma coisa dele ali. Esse disco é incrível. Inclusive, eu estou o louco do house agora, botando minhas filhas para cantarem, gravando. E eu acho que para além de disco, tem as pessoas que me inspiram, porque eu tenho meus discos de cabeceira, mas eu acho que pessoas que me inspiram ali, Carlinhos Brown, meu padrinho mestre, eu me sinto real, de fato, uma extensão dele nesse sentido musical, com as coisas que ele explorou ali com a Timbalada no início anos 90, tá sampleando… os dois primeiros discos da Timbalada pra mim é de cabeceira. Vou falar Pharrell Williams, é uma grande figura, Kanye West é uma grande figura, Skrillex é uma grande figura pra mim. Vou botar nesse bolo também um cara que inclusive troquei ideia pouco tempo atrás e inclusive voltou com a banda dele, que é BRANKO, do Buraka Som Sistema, também foi um cara muito influenciador. Ele também foi um dos caras que fez eu começar. Acho que é isso, Pharrell, Carlinhos Brown, Kanye West, BRANKO, do Buraka, Skrillex, Kaytranada, tá tudo dentro desse disco, apesar de não estar tão evidente, porque eu acho que a minha identidade se destaca mais, mas todos eles estão aí nesse bololô.
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