A Sony Music informou que solicitou a remoção de mais de 135 mil músicas deepfake das plataformas de streaming, em um movimento que ajuda a dimensionar a escala que esse tipo de conteúdo já atingiu dentro do mercado digital. As faixas simulavam vozes e estilos de artistas reais do catálogo da companhia, sem autorização.
O dado foi apresentado durante o lançamento do mais recente relatório da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), em meio a discussões da indústria sobre o avanço da inteligência artificial na música. Segundo a Sony, esse volume representa apenas uma parte do que já circula nas plataformas, indicando que o problema pode ser ainda maior do que o mapeado até agora.
Deepfakes acompanham picos de interesse e afetam campanhas
Um dos pontos destacados pela Sony é o comportamento desses conteúdos ao longo do ciclo de lançamentos. As músicas falsas tendem a surgir justamente quando os artistas estão em evidência, aproveitando momentos de maior busca e engajamento do público.
Dennis Kooker, presidente de negócios digitais globais da empresa, explicou como isso se traduz em um impacto direto:
“Nos piores casos, os deepfakes podem prejudicar uma campanha de lançamento ou manchar a reputação de um artista.”
O executivo também detalhou que esse movimento segue uma lógica de demanda, e não apenas de oportunidade técnica:
“O problema com os deepfakes é que eles são um evento orientado pela demanda. Eles se aproveitam do fato de que um artista está promovendo sua música. É quando os deepfakes estão no seu pior momento, se beneficiando da demanda que o artista criou e, no fim, desviando do que ele está tentando alcançar.”
Isso cria um cenário em que a própria visibilidade conquistada por um artista pode ser explorada por terceiros. Em vez de competir apenas com outros lançamentos legítimos, os projetos passam a disputar espaço com conteúdos que imitam a identidade artística e tentam capturar parte dessa audiência.
IA e fraude aumentam as distorções no modelo de streaming
O avanço dos deepfakes se conecta a uma discussão mais ampla sobre fraude no streaming. A facilidade de produção de conteúdo com IA reduz barreiras e permite que as músicas falsas sejam criadas e distribuídas em grande escala, muitas vezes combinadas com estratégias de manipulação de execuções.
Estimativas do setor apontam que até 10% do conteúdo disponível nas plataformas pode ter algum tipo de irregularidade. Isso inclui desde uploads não autorizados até sistemas de reprodução artificial usados para gerar receitas indevidas.
A IFPI tem tratado o tema como prioridade dentro da agenda global. A CEO da entidade, Victoria Oakley, resumiu o momento:
“O desafio de identificar e rotular conteúdo gerado por IA é absolutamente o próximo grande desafio.”
Além do impacto financeiro, há também uma questão estrutural. O modelo de distribuição baseado em volume de plays passa a ser pressionado por um ambiente em que nem todo conteúdo representa produção legítima, o que afeta diretamente a forma como receitas são distribuídas entre artistas e detentores de direitos.
Identificação de conteúdo vira ponto central da discussão
Diante dessa realidade, cresce a pressão por mecanismos mais claros de identificação de músicas geradas por inteligência artificial. A Sony defende que esse tipo de informação seja visível para o público e integrado à experiência das plataformas.
“Sem identificação adequada, os fãs não conseguem distinguir entre criatividade humana genuína e conteúdo gerado por IA não autorizado, o que pode gerar confusão, minar a confiança e afetar a experiência do usuário. A transparência não deve ser opcional, é a base de um ecossistema musical justo e sustentável”, resumiu Kooker.
Algumas empresas já começaram a testar soluções nesse sentido. O próprio executivo da Sony lembrou a Deezer implementou ferramentas para detectar e classificar faixas geradas por IA, enquanto outras plataformas estudam formas de incluir sinalizações diretamente nas músicas. Ainda assim, não há um padrão consolidado, e a adoção dessas medidas varia entre os serviços.

Escala do problema deve crescer com acesso à tecnologia
A Sony indica que o número de músicas identificadas até agora tende a aumentar, à medida que as ferramentas de IA se tornam mais acessíveis e fáceis de usar. Esse fator reduz o custo de produção e expande o número de usuários capazes de gerar conteúdos que imitam artistas conhecidos.
O volume de 135 mil faixas removidas funciona, portanto, como um recorte de um fenômeno em expansão. Mais do que um episódio isolado, ele aponta para uma mudança no ambiente digital da música, em que a gestão de catálogo, a identificação de conteúdo e o controle de fraude passam a ter um peso ainda maior na operação das empresas.
A forma como as plataformas, gravadoras e reguladores vão lidar com esse cenário deve influenciar diretamente o equilíbrio entre inovação tecnológica e proteção dos direitos autorais nos próximos anos.
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