Em carta publicada no blog do YouTube na segunda-feira, 16 de março, o executivo Lyor Cohen, chefe global de música da plataforma, apresentou as prioridades para 2026 e deixou clara a linha que a empresa quer seguir. Quando o assunto é inteligência artificial, o objetivo é usar a IA como ferramenta criativa, sem abrir espaço para cópias de imagem e voz de artistas nem para a proliferação de conteúdo de baixa qualidade.
A mensagem chega num momento em que o mercado tenta entender até onde as big techs vão na adoção da IA generativa. No caso do YouTube, o discurso combina duas frentes. De um lado, a empresa insiste que quer oferecer novas ferramentas para artistas, compositores e criadores. Do outro, promete sistemas de proteção mais rígidos, apoiados em estruturas já conhecidas da indústria, como o Content ID.
Esse posicionamento também surge em meio a uma disputa judicial envolvendo o próprio Google, empresa que controla o YouTube. Conforme você já leu aqui no Mundo da Música, um grupo de artistas independentes entrou com uma ação alegando que músicas disponíveis no YouTube teriam sido utilizadas para treinar o Lyria 3, modelo de inteligência artificial desenvolvido pela empresa e que serve de base para as ferramentas musicais do Gemini.
Os autores do processo argumentam que o uso das gravações teria ocorrido sem autorização ou compensação, reacendendo o debate sobre como grandes plataformas utilizam catálogos musicais no treinamento de sistemas de IA generativa.
IA entra de vez na estratégia do YouTube

Na carta, Lyor Cohen retoma uma fala recente do CEO do YouTube, Neal Mohan, para dizer que a IA continuará sendo uma ferramenta de expressão, e não um substituto da criação humana. A formulação não é nova, mas ganha peso porque aparece como diretriz para o braço musical da plataforma justamente quando cresce a pressão por regras mais claras sobre treinamento de modelos, uso de catálogo e cópias de identidade artística.
Antes de citar a fala, o executivo contextualiza que o YouTube está no meio de um período de transformação com a integração da IA generativa em seus negócios. A partir daí, ele descreve o que chama de uso responsável dessa tecnologia.
Lyor Cohen afirmou:
“A IA continuará sendo uma ferramenta de expressão, não um substituto.”
Em seguida, ele detalha que isso significa criar ferramentas para destravar novas possibilidades narrativas para artistas e compositores. Como exemplo, citou um vídeo reimaginado de Lewis Capaldi feito com a ferramenta Flow, da Google, via Wonder Studios. Ao mesmo tempo, afirmou que o YouTube está investindo em mecanismos para detectar uso indevido de semelhança e para combater o que chamou de conteúdo de baixa qualidade gerado por IA.
Lyor Cohen escreveu:
“Também estamos redobrando a aposta nos tipos de sistemas em que vocês confiam há anos, como o Content ID, para criar novas barreiras de proteção para detecção de semelhança, ao mesmo tempo em que combatemos a disseminação de conteúdo de IA de baixa qualidade em nossa plataforma.”
Vídeo musical vira eixo do discurso de carreira sustentável

A carta não trata só de IA. Boa parte do texto tenta reposicionar o YouTube como um ecossistema visual completo para o desenvolvimento de carreira. Lyor Cohen diz que, com bilhões de usuários logados assistindo a vídeos musicais todos os meses, o clipe segue vivo como motor de lealdade do fã. E vai além do conteúdo oficial: ele inclui nesse pacote apresentações, eventos culturais e formatos como o Tiny Desk, da NPR, como peças que ajudam a aprofundar a relação entre artista e público.
Essa leitura conversa com um movimento mais amplo do mercado. Num ambiente em que milhares de faixas chegam às plataformas todos os dias, a disputa não é só por play, mas por atenção recorrente. Por isso, o YouTube tenta vender a ideia de que o artista precisa construir um “mundo visual” ao redor da música, algo que conecte lançamento, performance, bastidor e comunidade.
Cohen escreveu:
“Sabemos que, para incentivar carreiras artísticas sustentáveis, ajudar os fãs a descobrir o mundo visual interconectado de um artista é mais importante do que nunca.”
Ele cita casos como a campanha de álbum de Baby Keem, além de números de audiência de performances de Bad Bunny, ROSÉ e Bruno Mars na plataforma. A mensagem é que para o YouTube, a música sozinha já não basta como unidade de consumo. O que vale mais, dentro dessa lógica, é a capacidade de transformar uma faixa em experiência contínua, algo que mantenha o fã por perto e mova outras frentes de receita, de assinatura a publicidade.
Nesse ponto, a carta também funciona como resposta indireta às críticas sobre remuneração. Lyor Cohen relembra que o YouTube pagou mais de US$ 8 bilhões à indústria musical entre julho de 2024 e junho de 2025 e afirma que o compromisso com monetização é total. Ao lado da defesa da IA responsável, o recado é que a empresa quer ser vista não só como vitrine, mas como parceira de negócio num mercado cada vez mais guiado por vídeo, assinatura, anúncios e fandom.
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