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‘Diga Não à Suno’: Empresa é alvo de carta aberta que compara IA a assalto no Louvre e cobra boicote da indústria

Um grupo internacional de representantes de artistas lançou a campanha “Say No to Suno” (“Diga Não à Suno”), com críticas diretas à plataforma de IA musical. A iniciativa veio acompanhada de uma carta aberta que compara o modelo de treinamento da empresa a um assalto ao Museu do Louvre e pede que a indústria interrompa […]

Carta aberta pede boicote à Suno


Um grupo internacional de representantes de artistas lançou a campanha “Say No to Suno (“Diga Não à Suno”), com críticas diretas à plataforma de IA musical. A iniciativa veio acompanhada de uma carta aberta que compara o modelo de treinamento da empresa a um assalto ao Museu do Louvre e pede que a indústria interrompa qualquer apoio ao serviço.

O documento reúne entidades conhecidas pela defesa de direitos autorais e coloca no centro do debate temas como uso de repertório protegido no treinamento de IA, fraude em streaming e diluição de royalties. A mobilização ocorre em meio a disputas judiciais envolvendo grandes gravadoras e ao crescimento acelerado do volume de músicas geradas por inteligência artificial nas plataformas.

Quem assina e o que está em jogo

Suno (Crédito: Divulgação)

A carta foi assinada por nomes ligados à defesa de direitos autorais, como Ron Gubitz, diretor executivo da Music Artist Coalition; Helienne Lindvall, compositora e presidente da European Composer and Songwriter Alliance; David C. Lowery, artista e editor do The Trichordist; Blake Morgan, presidente da ECR Music Group; Abby North, da North Music Group; Chris Castle, do Artist Rights Institute; e a artista Tift Merritt, integrante do conselho da Artist Rights Alliance.

O grupo acusa a Suno de ter “construído seu modelo de negócios nas costas dos artistas”, ao treinar seus sistemas com repertório protegido e depois competir com os próprios criadores. A carta sustenta que esse processo não é comparável a inovações anteriores da indústria, como o fonógrafo, o CD ou o streaming, porque a IA generativa cria obras derivadas a partir de material já existente.

O debate acontece em paralelo a disputas judiciais. A Suno enfrenta ações por violação de direitos autorais movidas por grandes gravadoras e entidades de gestão coletiva. Enquanto a Warner Music firmou acordo com a empresa, a Universal Music mantém litígio e defende modelos mais restritivos, conhecidos como “walled gardens”, em que músicas geradas por IA não poderiam circular livremente fora da própria plataforma.

Números que pressionam o mercado

Deezer faz balanço do primeiro ano com ferramenta de detecção de IA
Deezer faz balanço do primeiro ano com ferramenta de detecção de IA (Crédito: Divulgação)

Um dos pontos mais sensíveis da carta envolve fraude em streaming. Segundo dados divulgados pela Deezer, cerca de 60 mil faixas geradas por IA são enviadas diariamente à plataforma. A empresa informou que até 85% dos streams de músicas totalmente criadas por IA foram considerados fraudulentos em 2025. Esses streams são desmonetizados e excluídos do rateio de royalties.

Para entender o impacto disso no bolso do artista, é preciso lembrar como funciona o pagamento nas plataformas. O valor arrecadado com assinaturas e publicidade entra em um “bolo” que é dividido proporcionalmente ao número total de execuções. Se há um volume grande de reproduções artificiais, o montante destinado a obras legítimas tende a cair.

A carta afirma que a Suno gera cerca de 7 milhões de faixas por dia. Ainda que nem todas cheguem aos serviços de streaming, o volume ajuda a dimensionar o potencial de saturação do mercado. A discussão também envolve a questão da titularidade. Em diversos países, incluindo os Estados Unidos, órgãos como o US Copyright Office já indicaram que obras produzidas majoritariamente por IA não são elegíveis a proteção autoral tradicional.

Carta aberta na íntegra

Diga não à Suno

No fim do ano passado, ladrões disfarçados de operários invadiram o Louvre em plena luz do dia, levaram mais de 100 milhões de dólares em joias da coroa e fugiram de moto pelas ruas movimentadas de Paris. Embora alguns tenham sido presos, as joias ainda não foram recuperadas, e muitos temem que essas obras históricas já tenham sido recortadas, remontadas e revendidas.

Mais perto de nós, mas não menos perverso, está o roubo descarado de artistas viabilizado por IA irresponsável, cujos beneficiários estão recortando, remixando e revendendo obras originais como se fossem algo novo. O sequestro de todo o tesouro musical do mundo inunda as plataformas com lixo de IA e dilui os royalties dos artistas legítimos de cuja música esse lixo deriva.

Enquanto isso, os que promovem esse novo modelo de negócios operam em plena luz do dia, sem os coletes amarelos. Essa é a empresa de música por IA Suno, cuja campanha “Make it Music” sugere que as formas mais pessoais e significativas de música agora podem ser fabricadas por uma máquina não autorizada treinada com o trabalho de artistas humanos.

Dados públicos indicam que a Suno é usada para gerar 7 milhões de faixas por dia, um volume que sugere participação dominante entre músicas criadas por IA. Relatórios recentes mostram que a Deezer considera que 85% dos streams de faixas totalmente geradas por IA em seu serviço são fraudulentos. Como apontaram analistas do JP Morgan, esses dados devem refletir o mercado mais amplo. A Suno ainda não demonstrou de forma convincente que sua plataforma não serve, na prática, como insumo escalável para esquemas de fraude em streaming, levantando a preocupação de que tenha se tornado uma fábrica de fraude em escala industrial.

Em publicação no LinkedIn, Paul Sinclair, diretor musical da Suno, afirmou que a plataforma promove “empoderamento” ao permitir que “bilhões de fãs criem e brinquem com música”, e que sistemas fechados seriam “jardins murados” que negam às pessoas o pleno acesso à música.

Ironicamente, a analogia enfraquece o próprio argumento. Por que a maioria dos jardins é cercada por muros ou cercas? Para manter coelhos, veados, guaxinins e javalis longe do almoço grátis. Cultivamos, nutrimos e protegemos nossos jardins porque isso os torna mais produtivos no longo prazo.

A IA é fundamentalmente diferente de inovações anteriores na música. O fonógrafo, as fitas cassete, os CDs, os downloads e o streaming tratavam de reprodução e distribuição. Já a IA irresponsável apropria-se do trabalho criativo e enfraquece o ecossistema comercial dos artistas.

Lembre-se dos tempos do Napster. O que tirou a indústria do abismo da pirataria digital desenfreada foram justamente os sistemas fechados que hoje são criticados. Plataformas de streaming mantêm controles de acesso e sistemas de gestão de conteúdo que permitem remuneração aos criadores, ainda que muitos considerem os valores insuficientes.

Artistas precisam entender o jogo da Suno. A empresa não coloca tecnologia a serviço dos artistas; coloca artistas a serviço da tecnologia. Cada criação utilizada pela plataforma contribui para gerar derivados ilimitados da própria obra do artista, muitas vezes sem remuneração adequada.

Também é importante lembrar que o uso da Suno para gerar áudio coloca em dúvida a possibilidade de proteção autoral do que é criado. Em muitos países, inclusive nos Estados Unidos, as produções de IA generativa não são elegíveis a copyright tradicional. O valor econômico da criação tende a ficar com a própria plataforma.

Muitos na comunidade defendem o uso responsável da IA como ferramenta criativa. Isso é diferente de permitir que obras geradas a partir de nossas músicas sejam distribuídas em massa para diluir royalties ou alimentar fraudes. Nem todas as plataformas de IA são iguais, e a Suno, que enfrenta processos por violação de direitos autorais, não é uma plataforma em que artistas deveriam confiar.

Diga não à Suno. Diga sim à beleza e à abundância dos jardins que nos alimentam a todos.

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