A Deezer anunciou nesta semana uma atualização relevante no seu principal recurso de recomendação: o Flow Tuner. A novidade da Deezer altera a lógica de como o usuário interage com o algoritmo e coloca nas mãos do assinante o controle direto sobre os gêneros e subgêneros que aparecem na playlist personalizada.
Criado em 2014, o Flow sempre funcionou como uma trilha infinita baseada no histórico de escuta. Agora, com o Flow Tuner, a Deezer passa a permitir que o usuário ative ou desative estilos musicais em tempo real, sem depender apenas de curtidas, dislikes ou pulos de faixa para “ensinar” o algoritmo.
O que muda com o Flow Tuner
O Flow Tuner funciona como um painel de controle do algoritmo. Dentro do aplicativo, o usuário pode selecionar quais gêneros e subgêneros quer ouvir naquele momento e quais prefere deixar de fora. A escolha influencia tanto a sessão atual quanto as recomendações futuras.
Até aqui, o padrão da indústria sempre foi reagir ao comportamento passivo do usuário. Curtir, não curtir e pular músicas eram os principais sinais utilizados pelos sistemas de recomendação. Com a nova ferramenta, a decisão passa a ser ativa. O ouvinte não precisa esperar o algoritmo “aprender” aos poucos.
Segundo Marin Lorant, Head de Produto da Deezer, a proposta é tornar o processo mais transparente.
“O Flow Tuner é baseado em uma ideia simples: recomendações não deveriam ser uma caixa-preta. Nossos usuários querem encontrar a música certa para o momento certo e ter o controle para impactar como isso acontece. Ao permitir que eles ativem, removam ou explorem gêneros com um único gesto, o algoritmo se torna uma ferramenta que eles mesmos podem moldar. É mais preciso, mais pessoal e abre a porta para mais descobertas.”
Na prática, a Deezer sinaliza um movimento claro: o algoritmo deixa de ser invisível e passa a ser configurável de forma muito mais ativa que antes.
Exclusão de músicas geradas por IA
Outro ponto que chama atenção no anúncio da Deezer é a decisão de excluir músicas totalmente geradas por inteligência artificial das recomendações do Flow.
A empresa afirma que, graças à sua ferramenta própria de detecção de IA, as faixas criadas integralmente por sistemas automatizados não entram nas sugestões algorítmicas do recurso. A posição não é isolada. No ano passado, a Deezer registrou duas patentes relacionadas a um sistema capaz de identificar músicas totalmente produzidas por IA.
Há três semanas, a companhia informou que está recebendo mais de 60 mil faixas totalmente geradas por IA por dia na plataforma. O volume mostra o tamanho do desafio enfrentado pelos serviços de streaming. Ao mesmo tempo, a empresa sinaliza que pretende licenciar sua tecnologia de detecção para o mercado.
Esse posicionamento diferencia a Deezer num momento em que a discussão sobre IA na música ganha força. O controle do algoritmo, nesse caso, não é apenas sobre gêneros musicais, mas também sobre a origem do conteúdo que chega ao usuário.
Concorrência e contexto de mercado
O lançamento do Flow Tuner acontece dois meses depois de o Spotify apresentar, em versão beta, o recurso Prompted Playlist, que transforma comandos de texto em playlists personalizadas. A disputa entre as plataformas, cada vez mais, gira em torno de personalização e controle do algoritmo.
Fundada em 2007, em Paris, a Deezer é listada na bolsa Euronext sob o código DEEZR e tem valor de mercado em torno de 137 milhões de euros. No terceiro trimestre de 2025, a empresa registrou receita de 131,4 milhões de euros, queda de 1,1% em relação ao ano anterior em moeda constante.
Apesar da leve retração, a companhia destaca crescimento na base de assinantes diretos, enquanto o segmento de parcerias apresentou recuo já esperado. Dados do relatório “My Deezer Year 2025” mostram que usuários globais ouviram, em média, 122,8 horas de música no ano, com 691 faixas transmitidas de 402 artistas e 357 novas descobertas por pessoa.
Ao oferecer mais controle sobre o Flow, a Deezer tenta responder a uma demanda que vem se consolidando: menos mistério no algoritmo e mais autonomia para quem escuta. Em um mercado onde a curadoria automatizada define grande parte do consumo, transformar o algoritmo em ferramenta ajustável pode ser uma estratégia para fidelizar usuários que querem decidir, e não apenas reagir.
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