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Brasil ganha protagonismo global em 2026 e artistas mostram que a brasilidade sempre esteve no centro da música

O Brasil voltou a ocupar espaço no imaginário internacional em 2026. O sucesso de “O Agente Secreto” nos Estados Unidos, onde ultrapassou US$ 2 milhões em bilheteria, e a presença recorrente de produções nacionais em premiações como o Globo de Ouro ajudaram a consolidar um momento de atenção global que vai além do audiovisual.  Na […]

Menos é Mais, João Gomes, Luan Santana e EME, Brasil


O Brasil voltou a ocupar espaço no imaginário internacional em 2026. O sucesso deO Agente Secreto nos Estados Unidos, onde ultrapassou US$ 2 milhões em bilheteria, e a presença recorrente de produções nacionais em premiações como o Globo de Ouro ajudaram a consolidar um momento de atenção global que vai além do audiovisual. 

Na moda, o chamado Brazilcore transformou verde e amarelo, chinelos e referências tropicais em símbolo de estilo. No turismo, o país registra números superiores aos períodos de Copa do Mundo e Olimpíadas.

Mas, na música, essa visibilidade não nasce agora. Ela se intensifica. O que muda é o olhar de fora. E, mais do que isso, a disposição de escutar o Brasil em sua complexidade.

Muitos brasis, não apenas um

A ideia de que “ser brasileiro” virou tendência esbarra em uma questão central: qual Brasil está sendo visto? A imagem estereotipada do samba e do futebol ainda circula, mas artistas de diferentes gêneros têm ido muito além desse repertório.

Gustavo Goes, do grupo Menos é Mais, vê no pagode uma síntese dessa identidade coletiva.

“O pagode é o gênero mais popular do Brasil, na minha visão; eu acho que também é o gênero que as pessoas mais atribuem ao ser brasileiro, ao Brasil. Quando você vai para fora a galera vai lembrar do futebol e do samba, e eu acho que isso se faz pela força que tem a batucada, pelas melodias, pelas canções que tem no pagode, no samba, mas também é pelo que envolve a cultura do samba, de você ir numa roda de samba e você se encontrar com outras pessoas em um lugar para se divertir, você ocupar espaços que normalmente não se faz música e ela estar presente ali, então acho que isso diz muito sobre o tamanho desse universo que é o samba e o pagode, e a força que ele tem.”

A fala aponta para algo que atravessa gêneros: a dimensão comunitária. A roda de samba, o encontro, a ocupação de espaços. Não é apenas som, é comportamento. E esse comportamento começa a ser visto como diferencial cultural.

Autenticidade como ativo

Na música eletrônica, a discussão aparece sob outro prisma. EME, DJ, produtor musical e compositor ligado aos selos Warner Music, Duettos e Caldi, observa uma mudança no eixo de interesse global.

“Eu vejo esse interesse internacional pelo Brasil como algo muito verdadeiro, não é moda passageira. O mundo sempre olhou pra música eletrônica muito a partir da Europa e dos Estados Unidos, mas agora existe uma curiosidade real por narrativas que vêm de outros lugares, com outra carga cultural. O Brasil tem isso de sobra. Nossos ritmos nascem da rua, da periferia, da mistura, da resistência. Quando essas sonoridades chegam lá fora, elas chegam com verdade, com história, com corpo. E pista sente isso. O gringo não está buscando só um beat diferente, ele está buscando identidade, emoção, algo que não seja genérico. O Brasil entrega isso naturalmente.”

O que ele descreve é uma mudança de demanda. Não se trata de adaptar o som para caber em um molde internacional, mas de apresentar a própria identidade como diferencial.

No forró, essa percepção também aparece. Para João Gomes, a presença em uma vitrine como o Latin Grammy, por exemplo, altera a forma como a música nordestina é percebida.

“Com certeza muda, e muda pra melhor. Quando a gente chega num espaço como o Latin Grammy, levando o forró, o sotaque, a sanfona, o jeito nordestino de cantar e de viver, é como se o mundo parasse pra ouvir uma história que sempre existiu, mas que nem sempre teve essa vitrine. Lá fora, o pessoal se encanta muito com a verdade da nossa música, com a emoção que vem do chão, da vivência. Acho que o forró passa a ser visto não só como um ritmo regional, mas como uma expressão cultural forte, universal, que fala de amor, de saudade, de alegria e de resistência.”

O reconhecimento institucional se soma ao orgulho regional. Não é apenas um gênero que circula. É um território que ganha projeção.

Identidade sem adaptação

Música brasileira (Crédito: Fellipe Ditadi)

Se em outros momentos artistas brasileiros relataram pressão para suavizar sotaques ou ajustar repertórios, os depoimentos apontam para um movimento inverso.

“Antes, talvez a gente sentisse a pressão de ‘adaptar’ o som. Agora, o caminho é o contrário: quanto mais verdadeiro você é, mais as pessoas se conectam. Eu sinto que ser quem eu sou, cantar do meu jeito, com minhas raízes, virou uma força. Isso dá coragem pra gente sonhar mais alto e levar a música nordestina pra lugares que, alguns anos atrás, pareciam muito distantes.”, afirma João Gomes.

EME vai na mesma direção ao falar de seu projeto autoral.

“No meu trabalho existe uma escolha consciente, sim, de dedicar uma parte importante à música brasileira. Dentro do Projeto EME, existe um braço que nasce justamente com esse propósito: valorizar a cultura brasileira, inserir gêneros da nossa música dentro de um contexto global da música eletrônica, sem descaracterizar nenhum dos dois lados. Ao mesmo tempo, isso não acontece de forma engessada ou estratégica demais. Essa mistura surge de forma muito natural, porque a música brasileira faz parte da minha formação, da minha vivência e da minha identidade. Ela se soma à essência da música eletrônica que eu faço, se funde com ela. Não é sobre adaptar o Brasil ao mundo, é sobre deixar o Brasil existir dentro da pista, do jeito que ele é. E quando isso acontece com verdade, a conexão é universal.”

A frase sintetiza um ponto central do momento atual: o Brasil não está sendo moldado para exportação, mas apresentado como é nas suas mais variadas cenas. 

Escala, público e circulação

Os números ajudam a entender que não se trata apenas de narrativa simbólica. O Brasil figura entre os dez maiores mercados de música gravada do mundo, com receitas superiores a US$ 600 milhões anuais. No streaming, dados do Spotify indicam crescimento de mais de 600% nos royalties pagos a artistas brasileiros desde 2017.

Há também escala presencial. Gustavo Goes destaca:

“Você vê que a quantidade de pessoas que se reúnem em eventos aqui no Brasil é totalmente discrepante com o que você vê no resto do mundo. Aqui no Brasil você vê artistas do pagode, do samba colocando 50 mil, 80 mil pessoas nos lugares, isso é muito gigantesco e ao mesmo tempo mostra uma verdade muito grande, sabe? Então eu acho que tem tudo a ver. Você mostrar, você evidenciar um gênero musical, um ritmo através dessa cultura, através de mostrar toda a verdade que tem aquele som.”

O grupo entende isso como poucos. Afinal, o Menos é Mais já realizou turnês em Portugal, Europa e Estados Unidos, com públicos que chegam a dezenas de milhares de pessoas. A circulação internacional deixa de ser exceção pontual.

Brasil e América Latina

No sertanejo, o diálogo ganha outra camada. Luan Santana amplia o debate ao questionar a separação histórica entre Brasil e mercado latino.

“Esse movimento nasce de um encontro entre os dois caminhos. Existe, sim, uma demanda crescente lá fora por artistas do Brasil, pela nossa forma única de fazer música, de misturar emoção, ritmo e verdade. Mas também tem uma escolha minha de olhar pra fora sem deixar de estar com os pés muito firmes aqui. Eu sempre acreditei que a música não tem fronteira quando ela é sincera.”

E completa:

“Sabe o que penso de verdade? Eu penso que é se limitar demais excluir, do chamado mercado latino, todo este ecletismo musical nosso, toda essa nossa brasilidade de sons e tons, de ritmos, de danças e de cores. A gente tem de começar a levantar esta bandeira: somos latinos americanos, diziam Belchior e Zé Rodrix. A música latino americana inclui os estilos musicais de todos os países da América Latina. Creio que tem de fazer parte do ‘almejado’ mercado latino desde os mariachis do México, a salsa de Cuba (onde gravei um clipe com Enrique Iglesias e outro meu, Acordando o Prédio), os sons indígenas do Peru, da Bolívia e Equador, a flauta andina… E por que não as sinfonias de Villa Lobos, a Bossa Nova de Tom Jobim, a Tropicália de Caetano, o axé de Daniela, Ivete e tantos, o pagode do Zeca, Raça Negra ao Thiaguinho, o Sertanejo nosso de cada dia, o arrocha do Pablo…”, exemplifica. 

E completa: 

“Não se trata de uma aproximação ao mercado latino, se trata de uma manifestação de que também somos latinos, de que a nossa música pede passagem”.

Ou seja, a fala de Luan desloca a discussão de tendência para pertencimento histórico.

Orgulho que já existia

Embora 2026 seja descrito como um ano de “renascimento” da imagem brasileira, os artistas apontam que esse orgulho não nasceu agora. Ele sempre esteve nas bases, pelo menos na visão de Goes:

“Eu acredito que a aposta sempre foi no que é genuinamente brasileiro e o que mostra as nossas raízes, as nossas origens. O Menos é Mais é um grupo de Brasília e desde que o Menos é Mais se colocou assim, se mostrou pro Brasil, a gente sempre fez questão de ressaltar as nossas origens, que a gente não era um grupo do Rio ou de São Paulo, como normalmente a galera via, mas um grupo de Brasília que tem sua bandeira lá, que tem suas raízes lá e que quer mostrar a imagem da capital do nosso Brasil de uma outra forma, também mostrar um pouco da sua música e de todas as referências que a gente tem lá dentro do nosso segmento e também outros artistas que fizeram sucesso fora do nosso segmento.”

O que parece novo é o reconhecimento externo mais amplo. A música brasileira, em seus muitos brasis possíveis, sempre dialogou com identidade, território e coletividade. Agora, o mundo parece disposto a escutar com menos filtro exótico e mais atenção ao que cada cena tem a dizer.

Se há febre, ela não nasce do nada. Ela encontra uma produção que há décadas cultiva público fiel, lota shows, atravessa fronteiras linguísticas e insiste em afirmar que ser brasileiro não é um rótulo para exportação, mas mas uma base cultural que sustenta a música brasileira há décadas.

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