Mais do que entretenimento, o rap, o trap e o funk não são apenas gêneros musicais, são manifestações do saber popular e retratos vivos da atualidade, com produções que nascem como instrumentos de informação e educação.
Movimentos criados por artistas que observam o mundo ao seu redor e transformam vivências em versos, onde cantores, compositores e coreógrafos realizam trabalhos antropológicos sobre o seu tempo, usando a arte para contar histórias que, de outra forma, poderiam permanecer invisíveis.
Para a rapper Clara Lima, 26, que já está há anos na estrada dentro da arte, o movimento da música é visto como uma forma de a voz ter maior potência dentro dos debates: “Além de dar voz a quem não é escutado, é lugar de denúncia, é lugar de manifesto, de prospecção de vida. Mas sou um exemplo disso, já que a minha quebrada era o suficiente para mim. Desde que o rap chegou na minha vida, ele me deu perspectiva, ambição de viver o que o mundo tinha para oferecer além da minha área. Hoje já são oito anos fora da minha cidade, fora da minha quebrada, e, sem o rap, sem a música, eu jamais me imaginaria nesse lugar atual”, aponta a artista.
Como nem só de música se nutrem os ouvidos, Clara também cita outras referências dentro do universo hip hop: “Acredito que a nossa reorganização enquanto movimento é essencial, e falo isso a partir da ideia que o Galo de Luta e o Chavoso da USP trouxeram na entrevista deles no Podpah, dizendo que o foco maior não seria apenas o dinheiro, os cordões, os carrões, mas sim o estudo, também estúdios e bibliotecas comunitárias. O que falta para a sociedade interpretar a arte como um apelo de mudança é o acesso à cultura e, a partir disso, criar uma comunicação direta e clara entre o artista e o povo”, ela conclui.
Uma composição musical avalia também comportamentos e dá luz às diferentes rotinas e espaços de coletividade, já que essas forças de produção cultural retratam cotidianos que passam pela construção de cada indivíduo. Isso se torna parte da memória afetiva, construindo-se em torno das escolhas de faixas musicais para compor o dia a dia, vestindo a vida com uma trilha sonora própria: “Acredito que a transformação também está no mundo particular de cada um. O que me encantou no rap, quando conheci, era justamente isso de as pessoas se colocarem à disposição para falar o que era uma realidade que ninguém queria falar. A gente já ouvia músicas românticas, sucessos de vários gêneros musicais, mas o rap se dispôs a falar das coisas que aconteciam do nosso lado e que pareciam invisíveis. Era a realidade do dia a dia: pessoas batendo à porta pedindo ajuda, violência policial, dificuldades que eram vistas como normais. O rap colocou isso em forma de música e arte, em videoclipe, criando pautas e discussões, mas tudo depende da sensibilidade de quem escreve e de quem faz. O rap também pode ser agradável, trilha sonora de relacionamentos, mas possui o compromisso de narrar realidades profundas. Me identifico com isso, mas defendo que não é obrigação do rap ‘salvar o mundo’, já que cada um deve cumprir suas próprias tarefas”, é dessa forma que o rapper Rincon Sapiência, 40, enxerga o papel fundamental da arte como novos olhares sociais e aponta também o compromisso individual de quem faz e escuta as músicas.

Essa arte sonora não está restrita a filmes, álbuns ou plataformas de streaming; há a música da infância, do casamento, dos aniversários, aquela que faz rir ou chorar, a que educa e cria símbolos. Certas músicas têm o poder de transformar realidades, atravessando diferentes camadas sociais, e podem atuar como um noticiário que traduz de maneira mais sensível e profunda a realidade.
Com seu berço localizado principalmente nas periferias do país, o rap brasileiro é conhecido por criar forte conexão entre públicos distintos. Um MC cantando histórias sobre o seu bairro cria vínculos poderosos que alcançam quem jamais viveria aquelas situações, mas que, ao acessar essas letras, conhece outras formas de existir: “Acho que são vários versos que o rap brasileiro nos proporcionou, que impactaram e fizeram a gente pensar diferente. Por exemplo, gosto de um verso da música ‘Da Ponte Pra Cá’, em que o Brown cita: ‘Traz à quebrada o equilíbrio ecológico / Quem distingue o Judas / Só no psicológico’. Ele também diz: ‘Filosofia de fumaça, analise / Cada favelada é um universo em crise’. Vejo um cara divagando, parece um vizinho ou um amigo conversando, e colocou isso na caneta e na música de forma humana, poética e talentosa. São coisas desse tipo que me encantam, e não necessariamente uma super mensagem de autoajuda, mas o poder que tem de você colocar palavras no ritmo e ouvir como se a pessoa estivesse falando com você”, ressalta Rincon sobre o talento do artista na hora da criação.
“Acho que a diferença está muito na proposta do que a música faz enquanto arte. Não é só trazer essas realidades, mas como traz. Dependendo de como você canta, melodicamente, das palavras que usa, do tom da voz, o impacto pode ser muito maior do que nos noticiários […] Mesmo sendo sobre realidades periféricas, quando a gente grava, vai ao estúdio, digitaliza a voz e transforma em áudio, isso vira arte. Então, mesmo uma música sobre temas sérios ou outros assuntos, por ser música, está no campo da arte. E o campo da arte é um facilitador de diálogo: há pessoas que se alfabetizam, aprendem idiomas a partir da música. Pessoas que não vivem a realidade periférica podem se sensibilizar pelo que escutam. A música tem esse poder, mas não é obrigação do músico levar informação para alguém, isso é a consequência de transformar vivência em arte”, completa Rincon Sapiência.
Quando a educação vem da arte: o rap como fonte de informação
Artistas atentos aos detalhes da passagem da vida transformam experiências particulares em narrativas que passam a ser compreendidas quase que de maneira universal.
Trabalhos que expõem vulnerabilidades, dependências e experiências humanas são representados em letras de rap e hip-hop e funcionam como uma nova capacidade de nomear sentimentos ainda não compreendidos, educando e sensibilizando quem ouve. Dessa forma, a música não é apenas entretenimento: é memória, resistência, educação e narrativa social.
Para o rapper Don L, 45, a reflexão vai além da periferia: “Acho que a questão mais importante não é mais sobre realidade periférica, essa fase já passou, todo mundo sabe e nada muda. Agora a questão é qual a visão sobre ela. O pobre brasileiro que se sente classe média por não morar numa favela, e a classe média de fato, é induzido a achar que está mais próxima do bilionário do que do favelado, mas é o contrário”, descreve o artista, que chama atenção para discursos atuais que induzem as pessoas a terem visões distorcidas de classe e que, por sua vez, a arte pode entrar no papel de abrir novas possibilidades de diálogo.

“Vivemos em um mundo nebuloso, onde quase nada é o que parece. As informações podem humanizar ou não a pessoa periférica, mas reforçam a ideia de que falta oportunidade. Uma ilusão de que, se o jogo fosse mais limpo, o favelado teria chance de competir igual ao classe média. Na realidade, cada vez mais pessoas periféricas competem nesse espaço limitado, algumas até mais competentes por estarem acostumadas a condições duras. Mas o espaço é pequeno: para um subir, outro tem que cair. Então, o problema não é a oportunidade, é a falta de espaço. Notícias superficiais sobre falta de oportunidade não geram mudança coletiva, só mantêm a luta individual. Só vai parar o extermínio dos favelados quando não existir mais favela e todos tiverem moradia digna, com infraestrutura, comida barata e de qualidade, educação pública de qualidade e universal”, completa Don L.
É possível avaliar a arte como uma tradução que torna o cotidiano mais compreensível, um canal de informação sobre realidades distantes, o artista é como um porta-voz de seu tempo, cria imagens e descreve em suas produções as vivências dos espaços por onde passou e absorveu o que se oferecia da estrutura.
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