O Spotify divulgou nesta terça-feira (10) os resultados financeiros do último trimestre de 2025 e do consolidado do ano, encerrando um ciclo que a própria companhia classificou como “Ano da Execução Acelerada”. Os números, apresentados em relatório a investidores e em comunicado oficial, apontam crescimento na base de usuários, avanço nas margens e aumento da receita, a partir de dados reportados pela plataforma.
De acordo com o Spotify, a empresa fechou 2025 com 751 milhões de usuários ativos mensais, alta de 11% na comparação anual, e 290 milhões de assinantes Premium, crescimento de 10% em relação a 2024. O último trimestre do ano concentrou a maior adição líquida de usuários ativos da história da companhia, resultado que ajuda a explicar o tom confiante adotado pela liderança executiva na divulgação dos números.
A empresa também informou que a América Latina responde hoje por 21% da base global de usuários ativos mensais e por 23% dos assinantes pagos. O dado reforça o peso dos mercados emergentes no crescimento recente da plataforma, ao mesmo tempo em que levanta discussões recorrentes no setor sobre monetização, ticket médio e sustentabilidade do modelo em regiões com menor poder de consumo.
No campo financeiro, o Spotify reportou receita total de €4,5 bilhões no último trimestre de 2025, um crescimento de 13% em moeda constante na comparação anual. A margem bruta chegou a 33,1%, avanço de 83 pontos-base em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o lucro operacional atingiu €701 milhões. Os números apontam para um desempenho operacional mais consistente, após anos marcados por investimentos elevados e margens pressionadas.
Crescimento, discurso estratégico e leitura do próximo ciclo
Para Daniel Ek, fundador e atual presidente executivo do Spotify, os resultados refletem a consolidação da empresa como uma plataforma tecnológica mais ampla do que o streaming musical.
“Hoje, o que realmente construímos é uma plataforma de tecnologia para áudio – e, cada vez mais, para todas as formas como criadores se conectam com o público. E essa identidade será ainda mais importante daqui para frente. A próxima onda de mudanças tecnológicas – inteligência artificial, novas interfaces, dispositivos vestíveis, novas formas de interação com conteúdo – vai remodelar como as pessoas descobrem e vivenciam áudio e mídia. Os problemas difíceis que estão por vir – em música, podcasts, livros, vídeo, ao vivo e em coisas que ainda não construímos – vamos continuar desenvolvendo tecnologia para resolvê-los.”
O discurso de Ek aponta para uma estratégia de longo prazo fortemente ancorada em tecnologia e diversificação de formatos, ainda que boa parte dessas apostas, como inteligência artificial e novas interfaces de consumo, sigam mais no campo do desenvolvimento do que de impacto financeiro mensurável no curto prazo.
Já Alex Norström, co-CEO, destacou o cumprimento das metas operacionais estabelecidas para 2025 e indicou uma mudança de postura para o próximo ano.
“Encerramos o que chamamos de Ano da Execução Acelerada com mais um trimestre sólido, entregando um fechamento forte de 2025. No último trimestre, atingimos ou superamos as projeções em todas as principais métricas. Registramos o maior trimestre da nossa história em adições líquidas de usuários ativos. É impressionante pensar que hoje atendemos mais de três quartos de bilhão de pessoas ao redor do mundo. Estamos enquadrando 2026 como o Ano de Elevar a Ambição.”
A fala reflete um momento de maior confiança interna, embora o desafio de transformar crescimento de base em rentabilidade sustentável siga no radar de analistas e do próprio mercado.
Tecnologia, IA e o papel atribuído à plataforma
A relação do Spotify com novas tecnologias também foi abordada por Gustav Söderström, co-CEO e principal voz da empresa em inovação.
“Nós nos consideramos o departamento de pesquisa e desenvolvimento da indústria da música. Nosso trabalho é entender novas tecnologias rapidamente e capturar seu potencial. Toda a indústria tem a ganhar com essa mudança de paradigma [da IA], mas acreditamos que aqueles que abraçarem essa mudança e se moverem rápido serão os que mais vão se beneficiar.”
A declaração dialoga com iniciativas recentes da plataforma, como playlists geradas a partir de comandos de texto, testes com vídeos musicais e novos recursos de descoberta. Ainda assim, parte do mercado observa com cautela o ritmo e o impacto real dessas ferramentas, especialmente no que diz respeito à remuneração de criadores e à transparência dos sistemas algorítmicos.
Conteúdo, pagamentos e pontos de atenção
Segundo dados divulgados pelo próprio Spotify, a plataforma reúne atualmente mais de 7 milhões de títulos de podcasts, incluindo mais de 530 mil podcasts em vídeo, além de um catálogo de mais de 500 mil audiolivros em mercados de língua inglesa. No último trimestre, a empresa expandiu o formato Audiobooks para usuários Premium para cinco novos países europeus e apresentou recursos como resumos personalizados e integração entre formatos físico, digital e áudio.
O Spotify também destacou a edição de 2025 do Wrapped, que teria alcançado mais de 300 milhões de usuários e gerado mais de 630 milhões de compartilhamentos em redes sociais, em 56 idiomas. Embora o projeto siga como uma das principais ferramentas de engajamento da marca, seu impacto direto em receita e retenção de longo prazo não é detalhado nos relatórios financeiros.
No campo dos pagamentos, a empresa afirmou ter repassado US$ 11 bilhões à indústria da música em 2025, totalizando US$ 70 bilhões desde a sua fundação. De acordo com o Spotify, artistas e gravadoras independentes responderam por cerca de metade dos royalties distribuídos. Os números, embora expressivos em termos absolutos, continuam sendo alvo de debates no setor sobre distribuição por usuário, concentração de receita e a relação entre crescimento de base e remuneração média por artista.
Com operação em mais de 2.000 dispositivos de mais de 200 marcas, o Spotify encerra 2025 com indicadores operacionais mais sólidos, mas ainda cercado por discussões estruturais sobre monetização, equilíbrio com criadores e o peso real das novas frentes de negócio no seu modelo econômico.
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